terça-feira, 2 de maio de 2017

torrão de açúcar no safári íntimo - zoopoética na revista Modo de Usar & CO. e outrxs



torrão de açúcar no safári íntimo




I

o charuto apagado na canela da árvore de canela
dorme em pé o cavalo sob a coruja
reparar é dos exercícios em estar coruja
estar coruja é estar o único animal a dar de ombros
para o dilúvio porém o evento
a coruja espia o cavalo dormido
lê umas sortes

não conhece outros cavalos
foi desmamado muito cedo correu a vida de forma suave
demais para um búfalo fuma porque seu antigo dono
também porque seu antigo dono dorme em pé
é pobre e magro mas tem carrapatos premiados
dorme piscando de noite e de dia galopa pelado
com os olhos fechados espremidos na memória
num cantinho da memória onde guarda o desejo
o par de galochas vermelhas daquele novembro
daquele dente-de-leão entre os dentes daquela menina
entre as orelhas daquele diamante nos cabelos daquele
sal daquela via daquele cheiro daquele nome

cansada a coruja fecha as janelas e cortinas
acontece de amanhecer e o cavalo desperta
aperta outro charuto e volta pornográfico
suave bicho rico na mansidão costumeira das
manhãs que atestam a avenida principal da cidade
maior produtora de cadeiras campesinas


II

apenas o búfalo sabe a coruja na filosofia do cavalo
o peixe me penteia no safári íntimo
para cada dente-de-leão
plantamos três mais
três mais é número de sorte do cavalo


III

o charuto apagado na canela da árvore de canela
espicha os coices bate a crina põe rio no idioma
cospe o peixe no mato o cavalo é todo asco com o peixe
rejeitar os escorregadiços
é dos exercícios em ser tão cavalo
na agonia
lê umas sortes o peixe

não conhece outras capivaras
aprendeu a ser linda besta desde potrinho
o céu ser acima é a causa disso com os cavalos
comeu o miolo do pão que o diabo amassou
flerta com os abismos porque seu antigo dono
também porque seu antigo dono o cavalo é
hipnotizado pelas maçãs pelos dentes-de-leão
nos novembros entra em estado de aleluia mas
disfarça bem é pobre e magro
sabe o próprio coração em eterno desencaixe
com a carcaça a lua ocupa boa
parte da boca do cavalo da lamúria do cavalo
que sofre tanto com gravidade mas disfarça bem

antes que a morte o cavalo
devolve o peixe ao rio como quem
afoga uma cadeira

aperta outro charuto e bufa
o rinoceronte sempre bufa
não conhece outros cavalos


IIII

o charuto apagado na canela da árvore de canela
o cavalo sempre morre
um idiota traz uma cadeira para junto do corpo
mas o cavalo sempre morre
disfarça bem desenha dentes-de-leão no barro
não conhece outras mortes



(agradecimentos ao Ricardo Domeneck)






§§§


















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