terça-feira, 23 de maio de 2017

5 poemas de um projeto em contrações













goiaba

um instante congelado
um
antes do secador de cabelos
num instante onde o contorno do corpo
abarca a vizinhança umas lembranças do filme
o narrador é lisboeta?
umas lembranças sem os vestidos do filme
desse instante em diante seria
ligar o secador
mas ainda não





romã

encaro a estante de produtos de
limpeza
da sala vem a notícia com a cor
do desinfetante
uma mula deu cria em algum lugarzinho
brasil adentro beirando a tudo pelo meio
a embalagem borrifadora de limpador de
vidros é tão bonita quanto
a notícia da mula
queria daquela gelatina de limpar estátuas
então acho que quero uma estátua
um busto
quero um busto
um busto de mula fértil
ainda estou aqui é forasteiro estar aqui os
vidros estão emporcalhados o banheiro infeccionado
a mula e sua cria
sem nomes sobrenome e esse mal é todo meu
com tanto
não sofro de esperanças em sair daqui





meio mamão

metade da menina é saliva
meio menina
que também é metade mulher
um bocadinho menino é
uma menina indecente
muito embora a menina carregue
junto da barriga a cesta de frutas-do-conde
a montanha pelas costas a rua
pela frente umas curvas acima e aos
lados
meia menininha de porcentagens encarnadas
com frutas-do-conde na altura
da barriga

ela não conhece os lagos





três uvas

cada uma morre de um jeito
a senhora de burca dizia isso
cada passarinho cai de um jeito dizia
cada buraco é de um jeito
cada vez que faço o chá dizia
e as outras duas senhoras de burca diziam
a senhora acordou animada
e cada uma das três conhecia jeitos diferentes
da semente
cada uma morre





semente de maracujá

gosto de me deitar
gosto de esperar que o colchão esteja
gosto de colocar minutos na espera
gosto de desejar o caminho até a geladeira
gosto de decepcionar meu paladar
gosto de despentear minha franja soprando
palavras em desuso
gosto de comparar o contorno das mãos com o contorno das proas
gosto da formiga que promove a curva desnecessária
gosto de chuveiro com goteira gelada
e se eu não fosse uma espécie de objeto
gostaria de um pouco mais de consideração entre os
ombros de quem finge me enxergar apaixonada coisinha de jesus







terça-feira, 16 de maio de 2017

janelas para onde der – 31







você que chega da padaria
e traz pão e salame e o queijo de nome impronunciável
você que diz todas as árvores do caminho
você que diz
com tanto carinho com toda propriedade
todos os fogos do caminho você
que toca a maçaneta aprisionando teu próprio rosto
você que põe a toalha com o bordado para baixo
canta a música inventada puxa meu braço e
minha dança torta você que
apanha a faca e os copinhos você

que não sabe o que eu fiz enquanto você chegava




terça-feira, 2 de maio de 2017

torrão de açúcar no safári íntimo - zoopoética na revista Modo de Usar & CO. e outrxs



torrão de açúcar no safári íntimo




I

o charuto apagado na canela da árvore de canela
dorme em pé o cavalo sob a coruja
reparar é dos exercícios em estar coruja
estar coruja é estar o único animal a dar de ombros
para o dilúvio porém o evento
a coruja espia o cavalo dormido
lê umas sortes

não conhece outros cavalos
foi desmamado muito cedo correu a vida de forma suave
demais para um búfalo fuma porque seu antigo dono
também porque seu antigo dono dorme em pé
é pobre e magro mas tem carrapatos premiados
dorme piscando de noite e de dia galopa pelado
com os olhos fechados espremidos na memória
num cantinho da memória onde guarda o desejo
o par de galochas vermelhas daquele novembro
daquele dente-de-leão entre os dentes daquela menina
entre as orelhas daquele diamante nos cabelos daquele
sal daquela via daquele cheiro daquele nome

cansada a coruja fecha as janelas e cortinas
acontece de amanhecer e o cavalo desperta
aperta outro charuto e volta pornográfico
suave bicho rico na mansidão costumeira das
manhãs que atestam a avenida principal da cidade
maior produtora de cadeiras campesinas


II

apenas o búfalo sabe a coruja na filosofia do cavalo
o peixe me penteia no safári íntimo
para cada dente-de-leão
plantamos três mais
três mais é número de sorte do cavalo


III

o charuto apagado na canela da árvore de canela
espicha os coices bate a crina põe rio no idioma
cospe o peixe no mato o cavalo é todo asco com o peixe
rejeitar os escorregadiços
é dos exercícios em ser tão cavalo
na agonia
lê umas sortes o peixe

não conhece outras capivaras
aprendeu a ser linda besta desde potrinho
o céu ser acima é a causa disso com os cavalos
comeu o miolo do pão que o diabo amassou
flerta com os abismos porque seu antigo dono
também porque seu antigo dono o cavalo é
hipnotizado pelas maçãs pelos dentes-de-leão
nos novembros entra em estado de aleluia mas
disfarça bem é pobre e magro
sabe o próprio coração em eterno desencaixe
com a carcaça a lua ocupa boa
parte da boca do cavalo da lamúria do cavalo
que sofre tanto com gravidade mas disfarça bem

antes que a morte o cavalo
devolve o peixe ao rio como quem
afoga uma cadeira

aperta outro charuto e bufa
o rinoceronte sempre bufa
não conhece outros cavalos


IIII

o charuto apagado na canela da árvore de canela
o cavalo sempre morre
um idiota traz uma cadeira para junto do corpo
mas o cavalo sempre morre
disfarça bem desenha dentes-de-leão no barro
não conhece outras mortes



(agradecimentos ao Ricardo Domeneck)






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