quinta-feira, 23 de abril de 2015

janelas para onde der – 24





no retrovisor
espécie absurda da coisa janela
vê-se um boi feio horrível
horrível demais para ser só boi
um boi e uma vontade incubada noutra
na língua de ser boi choroso
o caminho avesso de ser boi sendo só boi linguagem
meu deus eu só queria ser boi eu queria ser boi e só
















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(grata, João Gomes!)





moietymoiety – 122




o meu amor não está aqui
nem aqui o meu amor está
há o ícone duma beleza muito escondida
entre as metades
não me faltam os meios
estou complexa
entre tudo o que é metade de mim
ai
lido com minhocas para dizer
lido assim
com as mãos assim
como que lidando com minhocas para dizer
eu não sei onde o meu amor andará qual a cor de seus sapatos roxos







(série do larCavoDica a ser postada também aqui)










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(grata, João Gomes!)





segunda-feira, 13 de abril de 2015

janelas para onde der – 23




meia hora depois de iniciar o óbvio
um beijo
só um beijo
nem metade um inteiro
achávamos que faríamos dez
mas um
um beijo
e a nova ordem: o mundo
sem amor e sem intimidade
um beijo
meia hora para o óbvio novo
meia hora para um outro
mas não
um beijo
e faríamos intervalo mas não
só um beijo
nem sede nem fome nem chuva nem lava
só os ossos perto da janela
e um beijo
e reconhecer o país pela nova ordem: o mundo
maior que a língua na faca melhor que a infância
o beijo o tétano o óbvio inteiro

sexta-feira, 3 de abril de 2015

janelas para onde der – 22






estou triste
mas é de costume
e é de customizar
não estou triste
não mesmo
não há nem espaço para um mar aqui
e nem adianta tentar me comprar com goteiras
e nem adianta tentar me comprar com gestos
com a proximidade de gestos
com o estreitamento da distância entre
um dedo teu e meu queixo trêmulo
nem adianta tentar abrir a gaiola
nem adianta libertar o coelho mais novo
nem adianta ficar exibindo esse costado largo
nem adianta dizer que o porco voltou
estou triste pra fazer exercido um costume meu
não estou triste quero explodir
mas é de costume querer explodir e não conseguir nunca

estou triste não estou triste
e olhe que as pitangueiras já nos cercam às janelas



     









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(grata, João!)