sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

janelas para onde der – 19





Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Seus olhos de estátua

E a curva do seu bico
Rói a solidão


Sophia de Mello Breyner Andresen    









extrai-se um periquito de um poema
abre-se a janela para que o periquito não trame fuga
alimenta-se o periquito
faz-se carinho nas asinhas
fecha-se a janela para que o periquito seja
abre-se a janela para que o periquito não trame fuga
alimenta-se o periquito
faz-se carinho no biquinho
ouve-se a vida reclamando lá fora
ouve-se Sophia em modos de periquito
reza-se ao periquito rezas e receitas e gemidos
reza-se ao periquito alpiste e mãos e ele mesmo e ainda
agita uma das asas
aponta a janela
aponta a lua e o meu ventre a lua e o meu ventre
aponta minha boca para onde voa e assim vamos mudos comprar
charutos champanha de macumba
pregos e martelo


dormiremos na praia de Sophia









§§§







(Obrigada, Jandira Zanchi! Obrigada, Daniel Zanella!)



ah! 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

janelas para onde der – 18





bebemos das gotas do vão da janela fechada
em abril será outro o ano
do coelho
porém não
quero me deitar ao seu lado
porém não
bebo da última gota ali bem perto
da última aranha ali bem perto
do último coração
ali
bem perto
fosse uma corça acanhadíssima
porém não
uma legitimada e viva mosca
porém
dói-me os punhos cruzados
quero me deitar ao seu lado
foi tanta gota que bebi
não me sinto
não sei e abro a janela num coice só
porém
o oceano porém
o oceano porém

foi tanta gota que bebi
quero me deitar porém
a criança que fica me assusta
tamanha sede
tamanho nariz de palhaço do meio dia e de
olhar olhar olhar e tremer
deu-me isso de pedir
espia meus punhos agora?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

moietymoiety – 120





I do not want to stretch my fox
upon thy flesh
I mean:
I do not intend to fight
I do not intend to hurt your damn mouth
do not want to stretch my fingernails over
lengthen my surnames on
over
on
upon
your language
I mean:
I mean what I mean:
I do not want the nologies
I do want to mean: I do not want to stretch my fox
upon thy flaccid flesh
do not want to fight
I mean: I just want to mean:
look at my uncombed fox: I just do not know what I mean
I mean:
I have this surface
and I do not know what I mean when I say
I have this surface
do not know what I mean when I say
I mean:








(série do larCavoDica a ser postada também aqui)








§§§









(Obrigada, Jandira Zanchi ! Obrigada, Daniel Zanella!)






domingo, 1 de fevereiro de 2015

janelas para onde der – 17



eu de pegar um jeito teu e abrir a janela e deixar chover
de um jeito teu uma chuva de consternação nuns tons duns cloridratos
eu de pegar teu rosto de pegar teu rosto
guilherme
eu de não me saber galrando galrando faço chover
de pegar teu rosto pra te dizer
guilherme me ausculta só essa vez
perdoa se cuspo perdoa se custo
de um jeito teu de me fazer abrir a janela e adolescer
aquilo que a gente deu de sonhar como embalagem de daqui
a mais
tarde goteira de tempo guilherme
aquilo que a gente deu de esquecer enquanto fala ri e chora
guilherme olha aqui
guilherme toca pra eu ver
guilherme dança pra eu zombar
guilherme guilherme
diz logo o meu nome e daquele jeito que é pra eu abrir a janela e correr desligar o forno a casa já se faz cobertor aceitável
guilherme olha aqui
guilhermo toca pra eu ver guilherme toca pra eu errar toca pra eu não ficar assim
eu de pegar um jeito teu e abrir guilherme ausculta só essa vez
ausculta vê como minha boca peleja em chover guilherme ausculta só essa vez guilhermo eu te mato guilhermo eu de pegar teu jeito e abrir a estadia pela escada de incêndio guilherme te mato te mato guilherme te mato