sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

MÚSICA PARA O ORIXÁ/ Ogum





um ano mais

é teu o ano
um ano arado todos os anos naquele dia
é teu o tempo é agora teu tempo
Ogum
Ogum
Ogum Ogum Ogum Ogum Ogum
todos os aros num ponto dessa terra
desce a manta metálica sobre o meu olho azul avermelhado
um ano e não mais
todos os aros nesse ano aquele dia
e acordar uma vez mais menor o macho sobre a ideia ferida e fêmea
e acordar uma vez mais menor o macho sobre a ideia ferida e fêmea
e acordar uma vez mais menor o macho sobre a ideia ferida e fêmea
Osin
Osin
Osin Osin Osin Osin Osin Imole
acossa o ferro o fígado a espinha acossa
guarda-la acarinha-la estanca da cara ferrolha a iniquidade
toda uma espada num profundo raso dessa ceifa


/da legitimada cegueira de Odudua festa e fios da cabeça do bode/

e batuca o ego achincalhando assim:
um ano arado todos os anos naquele olho
um ano ensartado todos os anos naquele olho
um ano imperador todos os anos naquele olho
um ano falado ao espelho todos os anos naquele olho
um ano de lindo todos os anos naquele olho
a cabeça do galo a cabeça do pombo e a do gato macho ainda na tua retina descoroada 
baldado cazumbi:


a lua na tua nuca na tua retina na minha vez. as fontes e as cadelas e as favelas da tua cidade: NOS ENTRINCHEIRAMOS ENTRE UM SINO E OUTRO. as estátuas feito armadilhas: um só pombo é capaz de saber: a estátua que nem armadilha. os portões que sustentam as casas mais antigas. vejo-me criança pendurada pelo pescoço na seta de ferro de um dos portões da tua cidade: me finjo de morta a lua na tua nuca na tua retina a casa cheia de gatos sorridentes. um só pombo chorando mágoas a carlosdrummond de andrade. tolera-se: SOU UMA MULHER DE LADOS: DESTE LADO O PRECIPÍCIO E DESTE LADO UM CAVALO RELINCHANDO MASSIVOS ALENTOS. demência! demência! mulheres dançando com árvores da tua cidade: COPULAR COM UMA ESTÁTUA EM ROMA. insanity! insanity!*















*(trecho de ninguém vai poder dizer que eu não disse – sobre os primeiros adornos – o festival da lua)


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

moietymoiety – 119





considerava imperativo
pintar
então cuidava
da casa
das crianças
das rezas
nunca deixava de cuidar
das bromélias e das boninas
mas
imperativo era pintar

pintava de corpo voltado para o norte
sem que o sul saltasse à paisagem

um dia morreria

poderia ser hoje o dia de morrer
poderia ser ao sul a paisagem onde deitar-se-iam uns olhos

imperativo era pintar
então morrer
cuidar
regar e rezar e lavar
esmorecer sob as horas
cozinhar sobre elas





(série do larCavoDica a ser postada também aqui)







§§§





também na edição 49 no SUICIDAS







...


os nervos


não gosto de falar sobre os nervos
mas quando chove
e também quando faz sol
tenho uma leva de nervos
que faz-me os argumentos mais frágeis
agarra-me pela goela
faz-me ficar falando quando não quero
não sei
talvez fosse mais apropriado não falar dos nervos
apesar da chuva
apesar do sol apesar do medo
talvez fosse o caso de ficar esperando
mas não tenho nervos para tanto
então falo
mas o que falo é outro assunto
não cabe
são os meus nervos





o coração


o coração é um só caminho:
você vai me ver
vai fingir que não me enxerga
vai me ver naquele corpo desabado na copa da árvore
vai jogar uma pedra
cutucar com uma vara
e quando eu cair
vai me oferecer tua melhor mão
vai dizer VEM COMIGO
EU SOU UM HOMEM DE CORAÇÃO
mas e os meus ovos, senhor?
O CORAÇÃO É UM SÓ CAMINHO
vai repetir
O CORAÇÃO É UM SÓ CAMINHO, NENÉM
temos o coração que sabe esse só caminho
somos feitos para o abismo para as copas das árvores
O CORAÇÃO É UM SÓ CAMINHO, NENÉM
O CORAÇAO É UM SOL DE VIAGEM


...




(gradicida, géus!)