quarta-feira, 2 de setembro de 2015

buraco de minhoca / 70 Poemas para Adorno






buraco de minhoca


ela corre a noite mulher suada alvejante corre
sente todos os gritos infantis formiga-lhe a boca
desaba nela um berço de balanço
mas assim sem a cabeça ora o lambe da placenta o óleo queimado
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca daqueles dias que se seguiam: ainda há
seus cabelos correm noutra velocidade nessa cor desabam escadas vermelhas
suada oleosa ferida fissura corre
assediado pela bruma o mundo acaba de começar deu-se o grito
aponta a bocarra ao céu do mais concretado oxigênio égua
nela desmorona um candelabro uma tesoura um recorte dum jornaleco de 1939
diz
perverter o pescoço saltando a correr
acaba de começar deu-se um grito um uniforme
e a mulher corre perverte salta e lasca os dentes numa fechadura
o tempo de suas patas
invocar o engodo mundo e o engodo mundo
tem dias desde o grito faz cartas e cartas de baralho com pernas e ventres infantilizados
faz-se marmitas faz-se bochechas rosadas faz-se ovo frito em capacetes
numa adivinhação da velocidade tombada
bala de canhão faz curva fêmea meu amor faz e fez e diz
um dia fará o tempo de suas patas fará
invocar os enganos e os desejos e o caimento dos vestidos nos portos
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca daqueles dias que se arrastam: ainda há
corre mulher louca tua lindeza sem tempo corre
a lua não doa vazão tua crina não cessa
o rabo é mais quente que a orelha
corre a mulher não cessa correr a extensão faz barricadas de trigo quebrado em campos da antemão o antebraço costurado no volante daquele trator
dos primeiros rumores desse grito motor égua
junto desaba o céu com feijões e ervilhas e arroz cru
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca
alguém se casou alguém disse sim e se ajoelhou há alegria num canto de qual mundo do tempo senhora égua?
o mundo faz festas em cantinhos separados do vagão
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca dias de crianças no jardim de aniversário: ainda o tempo brinca
abre a boca mulher que corre égua
engole já as santas imagens que caem do buraco de minhoca caem
santas moedas santas galinhas e repolhos
o garotinho dança com um rifle e canta praise the lord and pass the ammunition
estamos em paz a guerra é da mulher que corre e ela corre
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca que seguem os dias de hoje e os de amanhã
estamos salvos um dia seremos todos estamos tortos um dia seremos calma ontem chegou
extenso é hoje amanhã apenas figura
ontem chegou de mansinho no escuro tomba ingênuas ordens
o buraco é da mulher há tempos
e ela corre seu vestido é tanto foi carne e foi pedra e será jasmim
estamos salvos
ela corre a extensão sob os tempos relincha
empina um sorriso frouxo o menino olha amarra à cerca uma bandeira branca
égua há um pato bordado na bandeirinha
o pato agoniza morrendo feliz sua asa faz condecoração de ser feliz em ferro
devemos chamar os carregadores senhora?
é tanto caindo ao lado de cá e tanto caindo é tanto égua
a guerra é tempo o pato dorme o menino é contente égua
nela desmorona um violino uma violinista refugiada um recorte dum jornaleco de 1939
diz
perverter o queixo saltando a correr estamos salvos somos as ruas mais aflitas
a guerra é santa o buraco é dela os meninos nos nichos das casinhas de pedra égua
desaba um cheiro de oceano nunca vivido já oxidado
o buraco é extensão e faz filhos cheirando a ferro
desaba uma peça da engrenagem de um tempo relógio atado ao pulso
o buraco é fôlego fora do tempo do coração de um dos mundos
o buraco é pulso engrenagem sem tempo tornando todos os pulmões dos mundos
o grito costurado no volante daquele trator
alguém pergunta agora agora e depois égua é a resposta agora
devemos chamar uns filhos senhora?
a resposta é égua
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca daqueles dias que se desabam: uma égua corre
estamos salvos é dia de guerra é dia de noite é dia de fogos e de artifícios
a mulher corre égua a guerra acaba de fazer meninos
é 1939
estamos afeminados estamos todos sobre uma cadeira desabada
uma mulher corre e relincha
praise the lord praise the lord praise the lord*
égua a mulher corre 1939 anos
a guerra acabou o buraco é dela
égua a mulher sonda 1945 ideias terríveis
estamos todos afeminados estamos todos sobre uma cadeira desabada
do buraco de minhoca desabam peixes embrulhados em alistamentos
praise the lord we're all between perdition*
devo chamar os méritos senhora? égua
a mulher não cessa estamos salvos estamos salvos
ela corre formiga-lhe a boca os meninos feitos
estamos salvos a égua corre o buraco é dela a mulher corre
égua e jardim e buraco e pandemônio de mansos voluptuosos meninos guerreiros





*
Trechos de Praise the Lord and Pass the Ammunition de Frank Loesser







este poema está na coletânea 70 Poemas para Adorno, Nova Delphi, Portugal, 2015.

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