terça-feira, 13 de janeiro de 2015

moietymoiety – 119





considerava imperativo
pintar
então cuidava
da casa
das crianças
das rezas
nunca deixava de cuidar
das bromélias e das boninas
mas
imperativo era pintar

pintava de corpo voltado para o norte
sem que o sul saltasse à paisagem

um dia morreria

poderia ser hoje o dia de morrer
poderia ser ao sul a paisagem onde deitar-se-iam uns olhos

imperativo era pintar
então morrer
cuidar
regar e rezar e lavar
esmorecer sob as horas
cozinhar sobre elas





(série do larCavoDica a ser postada também aqui)







§§§





também na edição 49 no SUICIDAS







...


os nervos


não gosto de falar sobre os nervos
mas quando chove
e também quando faz sol
tenho uma leva de nervos
que faz-me os argumentos mais frágeis
agarra-me pela goela
faz-me ficar falando quando não quero
não sei
talvez fosse mais apropriado não falar dos nervos
apesar da chuva
apesar do sol apesar do medo
talvez fosse o caso de ficar esperando
mas não tenho nervos para tanto
então falo
mas o que falo é outro assunto
não cabe
são os meus nervos





o coração


o coração é um só caminho:
você vai me ver
vai fingir que não me enxerga
vai me ver naquele corpo desabado na copa da árvore
vai jogar uma pedra
cutucar com uma vara
e quando eu cair
vai me oferecer tua melhor mão
vai dizer VEM COMIGO
EU SOU UM HOMEM DE CORAÇÃO
mas e os meus ovos, senhor?
O CORAÇÃO É UM SÓ CAMINHO
vai repetir
O CORAÇÃO É UM SÓ CAMINHO, NENÉM
temos o coração que sabe esse só caminho
somos feitos para o abismo para as copas das árvores
O CORAÇÃO É UM SÓ CAMINHO, NENÉM
O CORAÇAO É UM SOL DE VIAGEM


...




(gradicida, géus!)





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