quinta-feira, 26 de novembro de 2015

moietymoiety – 131




para limpar a piscina adiciona-se o rosto junto ao posto donde se vê se sim se não tua cara limpa linda lembra a orla daquela mentira que teu pai costumava contar sobre as ruas debaixo das ruas os trens do submundo a vida de lá para limpar teu rosto imundo prateado a vida solta num ar reflexivo que te expira da tarde levantando um laço de lençol freático da própria película de água uma bicadinha duas bicadinhas para limpar a piscina de suor na barriga da menina.






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§§§


amanhã alguém morre no samba




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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

janelas para onde der – 30






senta-te
esta é uma cadeira segura
de si
não dê a chance para uma cadeira
tão segura
plotar a vaga ideia
de ser uma cadeira desocupada
seria a ruína para uma cadeira de lei
calha-te
calha-te calha-te
     diz o fio do machado
mas você vai e num pulo muito avançado para nossa época
senta a ideia no castor descascado da janela



















§§§





amanhã alguém morre no samba



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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

buraco de minhoca / 70 Poemas para Adorno






buraco de minhoca


ela corre a noite mulher suada alvejante corre
sente todos os gritos infantis formiga-lhe a boca
desaba nela um berço de balanço
mas assim sem a cabeça ora o lambe da placenta o óleo queimado
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca daqueles dias que se seguiam: ainda há
seus cabelos correm noutra velocidade nessa cor desabam escadas vermelhas
suada oleosa ferida fissura corre
assediado pela bruma o mundo acaba de começar deu-se o grito
aponta a bocarra ao céu do mais concretado oxigênio égua
nela desmorona um candelabro uma tesoura um recorte dum jornaleco de 1939
diz
perverter o pescoço saltando a correr
acaba de começar deu-se um grito um uniforme
e a mulher corre perverte salta e lasca os dentes numa fechadura
o tempo de suas patas
invocar o engodo mundo e o engodo mundo
tem dias desde o grito faz cartas e cartas de baralho com pernas e ventres infantilizados
faz-se marmitas faz-se bochechas rosadas faz-se ovo frito em capacetes
numa adivinhação da velocidade tombada
bala de canhão faz curva fêmea meu amor faz e fez e diz
um dia fará o tempo de suas patas fará
invocar os enganos e os desejos e o caimento dos vestidos nos portos
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca daqueles dias que se arrastam: ainda há
corre mulher louca tua lindeza sem tempo corre
a lua não doa vazão tua crina não cessa
o rabo é mais quente que a orelha
corre a mulher não cessa correr a extensão faz barricadas de trigo quebrado em campos da antemão o antebraço costurado no volante daquele trator
dos primeiros rumores desse grito motor égua
junto desaba o céu com feijões e ervilhas e arroz cru
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca
alguém se casou alguém disse sim e se ajoelhou há alegria num canto de qual mundo do tempo senhora égua?
o mundo faz festas em cantinhos separados do vagão
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca dias de crianças no jardim de aniversário: ainda o tempo brinca
abre a boca mulher que corre égua
engole já as santas imagens que caem do buraco de minhoca caem
santas moedas santas galinhas e repolhos
o garotinho dança com um rifle e canta praise the lord and pass the ammunition
estamos em paz a guerra é da mulher que corre e ela corre
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca que seguem os dias de hoje e os de amanhã
estamos salvos um dia seremos todos estamos tortos um dia seremos calma ontem chegou
extenso é hoje amanhã apenas figura
ontem chegou de mansinho no escuro tomba ingênuas ordens
o buraco é da mulher há tempos
e ela corre seu vestido é tanto foi carne e foi pedra e será jasmim
estamos salvos
ela corre a extensão sob os tempos relincha
empina um sorriso frouxo o menino olha amarra à cerca uma bandeira branca
égua há um pato bordado na bandeirinha
o pato agoniza morrendo feliz sua asa faz condecoração de ser feliz em ferro
devemos chamar os carregadores senhora?
é tanto caindo ao lado de cá e tanto caindo é tanto égua
a guerra é tempo o pato dorme o menino é contente égua
nela desmorona um violino uma violinista refugiada um recorte dum jornaleco de 1939
diz
perverter o queixo saltando a correr estamos salvos somos as ruas mais aflitas
a guerra é santa o buraco é dela os meninos nos nichos das casinhas de pedra égua
desaba um cheiro de oceano nunca vivido já oxidado
o buraco é extensão e faz filhos cheirando a ferro
desaba uma peça da engrenagem de um tempo relógio atado ao pulso
o buraco é fôlego fora do tempo do coração de um dos mundos
o buraco é pulso engrenagem sem tempo tornando todos os pulmões dos mundos
o grito costurado no volante daquele trator
alguém pergunta agora agora e depois égua é a resposta agora
devemos chamar uns filhos senhora?
a resposta é égua
sobre a eterna extensão sob o buraco de minhoca daqueles dias que se desabam: uma égua corre
estamos salvos é dia de guerra é dia de noite é dia de fogos e de artifícios
a mulher corre égua a guerra acaba de fazer meninos
é 1939
estamos afeminados estamos todos sobre uma cadeira desabada
uma mulher corre e relincha
praise the lord praise the lord praise the lord*
égua a mulher corre 1939 anos
a guerra acabou o buraco é dela
égua a mulher sonda 1945 ideias terríveis
estamos todos afeminados estamos todos sobre uma cadeira desabada
do buraco de minhoca desabam peixes embrulhados em alistamentos
praise the lord we're all between perdition*
devo chamar os méritos senhora? égua
a mulher não cessa estamos salvos estamos salvos
ela corre formiga-lhe a boca os meninos feitos
estamos salvos a égua corre o buraco é dela a mulher corre
égua e jardim e buraco e pandemônio de mansos voluptuosos meninos guerreiros





*
Trechos de Praise the Lord and Pass the Ammunition de Frank Loesser







este poema está na coletânea 70 Poemas para Adorno, Nova Delphi, Portugal, 2015.

mais informações e como comprar aqui.














“... A totalidade das vendas reverte para o Grupo Dançando com a Diferença, projecto de Henrique Amoedo, cujo elenco inclui, sem balizas, pessoas com deficiência. Artistas que dançam com o corpo, sempre, e não “apesar do corpo” ...”






terça-feira, 18 de agosto de 2015

moietymoiety – 130




eu me perdia e me encontrava
até a divisão
eu me perdia
eu me encontrando
até que bestamente
dois veríssimos ambientes
até que a divisão

José eu não nasci pra ser gente
temo e como o ovo
sovo e choro o pão
José porque é o nome que te invento para agora
José eu não nasci para ter condição



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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

moietymoiety – 129





ao outro Norte
oposto ao Norte
onde não se alcança o que coça nunca
uma galinha pesca num buraco no gelo
no meio do farelo
prendida ao chão
pelas mil e quatrocentas moelas nos bolsos da jaqueta de couro






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quinta-feira, 23 de julho de 2015

moietymoiety – 128




uma janela tão limpa
de dentro para fora
será suficiente ao futuro que pretendes?

vestida de tulipa prateada
de dentro para a lua
a lua numa página pausada
o livro duro
será futuro?
juramento com elos
vestidos de prata
brincos sem memória

sapatos novos para a neve do litoral, uma janela tão dilatada será?





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quinta-feira, 16 de julho de 2015

janelas para onde der – 29





a janela possível
e reaprender a fazer a cama
colar a meditação no papel de parede imaginado
latinhas de lixo de papel
com muito espaço entre uma lata e outra e outra
e a caneta que prende a cortina 
e a caneta que prende a orelha
das janelas impulsivas













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amanhã alguém morre no samba



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quinta-feira, 9 de julho de 2015

moietymoiety – 127




do not wipe this drool made of euphoria
I dread all these years I drooled
half true
half also true
and how many lips could I dry for you
saying
no mouthpiece is an island
?





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sexta-feira, 26 de junho de 2015

janelas para onde der – 28





não há janela que desminta
o vento responde
o vento muda de direção
mas o vento nunca se muda da matéria vento
e sempre responde
diz
respeita
diz
respeita ou saia cagando
e gruda folhosas informações nos cabelos


















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segunda-feira, 22 de junho de 2015

moietymoiety – 126





pelo menos
se fosse bem repensado
o circo
fosse repesado
o mundo
saberíamos
em plena certeza indivisível
que o número 1
é o único
perfeitamente divisível por 2
eu sei
tu sabes
eles não

o que somos concentra-se num só ponto equilibrista cego

pelo menos
e pelo menos
já é caminho






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§§§


amanhã alguém morre no samba





lançado está!
pedidos pelo inbox de Nuno Moura!
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pida! pida! pida que os Doudos mandam pra tudo que é lugar!








quarta-feira, 3 de junho de 2015

janelas para onde der – 27




a janela emperrou por nós
por outros
faria uma cidade um cruzeiro e mais uma cidade
por nós estanca a palavra antes da orelha
faz abandono




















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amanhã alguém morre no samba


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terça-feira, 2 de junho de 2015

moietymoiety – 125





se o bulbo do meu pelo é o teu começo
homem
se minha cara é essa mesma
a cara que te esteia
com sorrisos frouxos

ai, sacuda-me
sacuda-me um pouco vez ou outra o tempo todo
com a tempestade que tenta
tenta e cai e tinge os dias da cor da tua pelagem
nós
meus nós dos dedos na pinça

nós, se o bulbo do meu pelo é o teu começo
com sorrisos e frouxidão

nós e uns dedos













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terça-feira, 26 de maio de 2015

janelas para onde der – 26






para abrir essa janela
sento-me numa cadeira branca
descasco uma manga verde
como lascas da polpa com sal marinho

eu que achava que todo sal é marinho
eu que sei que todo o azul é do pedro
que toda paisagem é cristalizada
assim que se abre uma janela

sento-me numa cadeira branca
descasco uma manga verde
destampo todos os meus dedos

eu que sei que em todo vermelho
pode o sal o sol minhas chagas no azul
para abrir essa janela
para amolecer essa janela
para esvaziar essa janela e matar
a mosca que vem todos dias
suavizar o parapeito e o palavrão






     












§§§





amanhã alguém morre no samba








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moietymoiety – 124




lost sun
rolling in my glass bowl
little goldfish
your diminutive eyes in the front window of my sacred statues store
pint-sized desirous sun
little goldfish rolling in my bag of straw
your diminutive openings of staying alive
lost kiss
lost cat
lost baby of mine




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sexta-feira, 15 de maio de 2015

moietymoiety – 123





as artes vermelhas
como armas brancas
me encantam aos meios
me atravessam
laminam meu homem
as artes vermelhas
um homem outro de dentro mais um e esse
último
meio Russo
as artes vermelhas
me chamam
me ditam
BONECA








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quinta-feira, 23 de abril de 2015

janelas para onde der – 24





no retrovisor
espécie absurda da coisa janela
vê-se um boi feio horrível
horrível demais para ser só boi
um boi e uma vontade incubada noutra
na língua de ser boi choroso
o caminho avesso de ser boi sendo só boi linguagem
meu deus eu só queria ser boi eu queria ser boi e só
















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(grata, João Gomes!)





moietymoiety – 122




o meu amor não está aqui
nem aqui o meu amor está
há o ícone duma beleza muito escondida
entre as metades
não me faltam os meios
estou complexa
entre tudo o que é metade de mim
ai
lido com minhocas para dizer
lido assim
com as mãos assim
como que lidando com minhocas para dizer
eu não sei onde o meu amor andará qual a cor de seus sapatos roxos







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(grata, João Gomes!)





segunda-feira, 13 de abril de 2015

janelas para onde der – 23




meia hora depois de iniciar o óbvio
um beijo
só um beijo
nem metade um inteiro
achávamos que faríamos dez
mas um
um beijo
e a nova ordem: o mundo
sem amor e sem intimidade
um beijo
meia hora para o óbvio novo
meia hora para um outro
mas não
um beijo
e faríamos intervalo mas não
só um beijo
nem sede nem fome nem chuva nem lava
só os ossos perto da janela
e um beijo
e reconhecer o país pela nova ordem: o mundo
maior que a língua na faca melhor que a infância
o beijo o tétano o óbvio inteiro

sexta-feira, 3 de abril de 2015

janelas para onde der – 22






estou triste
mas é de costume
e é de customizar
não estou triste
não mesmo
não há nem espaço para um mar aqui
e nem adianta tentar me comprar com goteiras
e nem adianta tentar me comprar com gestos
com a proximidade de gestos
com o estreitamento da distância entre
um dedo teu e meu queixo trêmulo
nem adianta tentar abrir a gaiola
nem adianta libertar o coelho mais novo
nem adianta ficar exibindo esse costado largo
nem adianta dizer que o porco voltou
estou triste pra fazer exercido um costume meu
não estou triste quero explodir
mas é de costume querer explodir e não conseguir nunca

estou triste não estou triste
e olhe que as pitangueiras já nos cercam às janelas



     









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(grata, João!)