sexta-feira, 5 de setembro de 2014

janelas para onde der – 10





no dia em que você morreu
perdi algo que me era essencial
da carne mesmo um braço um prego um rasgo no linho
o miolo aparente bugalhos meus todos alhos uns dentes
perdi algum rumo também como sempre perdi algum rumo
como sou de perder você eu já havia perdido
me machuquei muito a pele os cabelos
as unhas a pele o estômago doeu
tua razão no céu
chovia chove gelo quando você morreu
me enxovalhei matei minha mãe minha cachorra uma vizinha
e eu me perdi n’algo da essência
sôbolos risos sôbolos enganos sôbolos tijolos
o apanhado povo dissidente disse dissidente
uma bússola um mapa uma ampulheta
algum rumo também como sou de perder
não fiz o teu cachecol perdi
uma ampulheta um mapa um caminho de migalhas
me arrebentei
me estraçalhei
mas veja que acidente bonito desgraçado lindo
estou festivamente perdida
e somente aqui nesse tanto de agora
é uma massa imensa que vem faz longe
aqui pelada ralada duvidosa eu sou e parto a novamente ser
brutal besta abobalhada ambígua linda desrespeitável vulcão
parto e sou gentil amarga engraçada chorosa puta santa descontrolada em eternas dietas que não
interditável-você-disse inadiável mentirosa comediante amputável abortável aborteira
excesso escarro de peso de voz de ódio e de inclinação
eu sou corcunda e você morreu eu bato panelas
perdi algo da essência daquilo que nunca a mim serviu
veja que era meu e não me servia mais
eu sou e estou aos desmoldes da esquina por exemplo e você morreu
a pele os cabelos as unhas a pele o estômago a cara morreu
foi fascinante o dia chovia gelo descosturei os bolsos pra caber
havia a cor do dia uma janela
quando você morreu
sim “é preciso amar outros nomes” 
   /o teu já não era esse nome preciso amor/
e sim é preciso esse sol de derreter o mofo que aquele ônibus fez chover
a mala as malas tua mãe tua nuca e tuas palavras
ungidas da ante fome já matada
sofridas erramos mas não aqui
veja que os fantasmas falam e falam pelas orelhas
lembro dum escrito num muro “são bêbados os fantasmas”

uma janela quando você morreu sigo por lá como sou e sigo
janela arreganho: a precisão centrífuga da minha vida enovelada cabal movediça: agora e um pouco além pra frente e para os lados
pelada e hedionda a perder tantos
quase todos os rumos que é como eu sou de perder

sôbolos erros a me carregar por essa esquina me achei
a dois palmos de mim o chão
sôbolos dedos um mundo e vou








            















§§§














e na Coyote número 25/ Kan Editora (Obrigada aos meninos uivantes, Rodrigo Garcia Lopes, Marquinhos Losnak, Ademir Assunção)!
Distribuição nacional (BooksMania, Livraria Cultura, Livraria Saraiva, Livraria da Travessa) pela Editora Iluminuras


3 comentários:

  1. É PRECISO SABER MORRER PARA TER VIVIDO TODO ESSE TANTO, CARLUCHA, MINHA PEQUENA!
    @AMEI.COM.BR
    BJKAS
    MÁRCIA (AQUELA PRIMA, PEDAÇO DOS SEUS PEDAÇOS, LEMBRA?)

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  2. Clarque que sei, Marcinha, Marcy! Te amo, prima!

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