quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

moietymoiety – 118





do espaço físico da sentença que penso
toco meia palavra no lugar
tão triste que ando
quero dizer
REMATE DE ESTAÇÃO
e tropeço
MARÉ, MARÉ, MARÉ,










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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

janelas para onde der – 16





ninguém
alguém viu a janela
pergunta-se
ficava ali sobre as florinhas murchas
ficava fechada e ficava aberta
tinha dia de ter gente nela
no escuro um ponto em brasa nela
tinha noite de ter panos e vozes esvoaçantes
ninguém viu o cavalo que ficava debaixo dela
pergunta-se
alguém viu um homem parecido com isso
alguém viu um vulto parecido com surpresa
ficava ali sob a janela
tinha dia de ter gente nela
era veloz e se sabia










terça-feira, 2 de dezembro de 2014

moietymoiety – 117





era pra não dizer
digo
que aqui
entardece tarde
quando o sol já pelo meio
aqui
amanhece muito cedo








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terça-feira, 25 de novembro de 2014

janelas para onde der – 15






fecha-se a porta o comportamento da porta
quem vê não olha deste lado bufa e vê
baça é a maneira de ralhar com
as fibras da porta
uma mulher uma leoa uma gestante
a gestora das sombras das piadas amanhecidas
daqui até ali parando e bufando até aqui rindo
na rua bufam passantes e o vendedor de espelhos
ela bufa
uns gestos conseguem atravessar a barreira
bufa
barreira 
bufando até aqui e chora
atravessam e aqui estão
uns bibelôs baratos
uma barata de vidro um camponês depravado
uma lâmpada com uma barquinho dentro 

bufa um novo continente orquídeas carnívoras
e agora sim
fecha-se 
janelas 
o comportamento delas
chove muito e a mulher sente o vendedor de espelhos
tão colado à porta quanto ela
bufam corações do mesmo hálito gregoriano
um dos espelhos sugere uma consternação mais capacitada
e um cachorro deitado abaixo do primeiro 
degrau de azulejos escorregadios













§§§



Fui gentilmente convidada a fazer parte desse lindo projeto
"Empreste sua voz a um poeta morto"
da revista MODO DE USAR & CO. 


a um filho morto, de Sebastião Alba.










(obrigada, Ricardo!)






terça-feira, 18 de novembro de 2014

Empreste sua voz a um poeta morto - projeto da revista MODO DE USAR & CO.





Fui gentilmente convidada a fazer parte desse lindo projeto
"Empreste sua voz a um poeta morto"
da revista MODO DE USAR & CO. 


a um filho morto, de Sebastião Alba.







(obrigada, Ricardo!)








sábado, 15 de novembro de 2014

moietymoiety – 116




quando palha
palha de aço
e ser o homem esfregando uma minha ideia
vestida de homem
com um lápis mole entre as pernas:
tenho o dom da palavra quando cheiro os teus dedos
tenho o dom da palavra quando cheiro os teus dedos
tenho o dom da casaca








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terça-feira, 4 de novembro de 2014

janelas para onde der – 14








não
não abra a janela nesta hora
não há fogo algum no mundo
não mais
todas as crianças
todos os gatos estão dormindo
respiram como ostras
há um abismo perto de onde eu passei a morar
deixa-me acontecendo no teu peito
aspira-me um pouco mais que a terra
já está a aquietar-se
respira como uma ostra
sim
podes abrir a janela
não
não abra a janela ainda ou nesta hora
deixa-me minada no teu peito salva o meu couro o nosso sal

















quinta-feira, 30 de outubro de 2014

janelas para onde der – 13











num copo descansado e vazio
a janela aberta
um tombo e desistir de
no peitoral como que num peitoral
meu dia assim
assim
sem fixar música em
no peitoral como que num peitoral e desistir





quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Nichos/ Parede






- sabe, a gente põe o pé no futuro e tira com tanta pressa.
- você não tem coração.
- como você sabe?
- dá pra ver daqui.
- através do meu peito?
- e pela coloração das unhas. você diz que a gente põe o pé no futuro e tira. isso é coisa de gente sem coração. olhar para os teus dedos só comprova isso: você nunca arranhou um porco ou uma prostituta. além do mais você vive muito limpinho por aí, querendo meter o pé no futuro. quem tem coração traz sempre um tanto de folhas, um tanto de poeira nos pés. você não tem coração. escuta: (desenha e põe um ponto final no coração na parede da escola) pensa que me engana, mas não tem e não tem não.








sexta-feira, 17 de outubro de 2014

moietymoiety – 113




uma metade disfarçada da outra
a cicatriz tomando horas
a meia-vida de uma ordem toda
os meios
os meios e a chaleira gritando as honras

há uns dois ou três torrões eu não choro











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moietymoiety – 115




o tamanho da metade existida antes da metade
um inteiro todo
pensando dividido
o tamanho da metade comparada ao outro parto sob a mesa rustica
pertinho da luz
você sabe
fazendo sombra e fraude no tamanho do pingo de azeite













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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

janelas para onde der – 12





pela borda das coisas que dizia
ia
para cada dança uma anuência
de dor
apagava a luz
abria a janela e pendia meio 
corpo de luz e meio corpo de eco para
fora junto das bordas daninhas
pela borda das saudades sangrava
havia o punho e o punho
manchavam os dias
esfarelava gestos fraternos e gestos
mundanos
e seria
mais que borda
seria um rosto sem medicina
apagava o que escrevia
pendia chaves aos molhos
seria gato sem resquícios
sardinha sem comedimentos
abria e fechava a janela e pendia pela
borda dos pés que via as coisas que pelas barras se diziam















§§§






inda fazendo a loka do realejo 
na edição 48 
no sítio das Escritoras Suicidas
(gadicidimais, Mariza, Silvana!)






domingo, 5 de outubro de 2014

Nichos/ A Morte: A Estrela






- você ainda não sabe. você ainda não sente.
- ninguém escuta e ninguém recolhe.
- mas você ainda não sente.
- estalo ovos, ao invés.
- ao invés não se instala e ainda mais você que não sabe.
- ao invés de saber faço comboio de objetos de viver sem saber e sigo.
- ao invés de solver.
- ao invés de concorrer.
- mas um dia será. você estará comendo grãos de café. pensará sem concorrer: que diabos? uma águia ali, um pardalzinho também. pensará: mas que diabos! e ao invés de sorrir começará uma blusa de tricô azul mais que marinho, mais lunar que manhãzinha de lua. que diabos será argumento para respirar: que diabos!
- será?
- e ao invés do frio serei.
- mas e eu que ainda nem sei?
- que diabos e eu que ao invés e ainda serei.







    














§§§






inda fazendo a loka do realejo 
na edição 48 
no sítio das Escritoras Suicidas
(gadicidimais, Mariza, Silvana!)







quinta-feira, 2 de outubro de 2014

forjicadas - a máquina de costura






foi concebida em sonho e funciona
como digo agora
digo que funciona com rodas
papai passa pelo tecido e o aplaude
em pé
o vendedor corre o balcão
mede
corta
embrulha
amarra tudo com um cordão vermelho que faz laços
à felicidade de papai
papai que chega desembrulhado e
com todo e mais algum amor
cobre a máquina com o tecido de motivos marítimos
no que a família toda comemora tomando
suco de cana e arrotando nomes da pilantragem atual
e assim é que
realmente funciona a máquina de costurar
o que diz o manual é outra dança











quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Nichos/ O Mundo: A Temperança



- a menina é a culinária dela.
- minha impressão escondida debaixo da toalha.
- a menina sabe.
- minhas pernas debaixo da mesa.
- a menina é o pedregulho.
- minhas coxas feito rochas.
- a menina é o pedregulho.
- a menina tempera. é a temperança.
- a menina não fala.
- a menina tem uma colher de pau.
- a cozinha é sulfurosa.
- a menina quebra o ovo a um palmo do nariz.
- Bob Dylan está entre nós.
- a menina é a carinha dele.
- não existe não. sim não existe não.
- batido é o bolo.
- eu creio na colher de pau, jesus.
- e nas jabuticabas e no farelo da ignorante realidade.




     












§§§





TUMBLR

§ larCavoDica § 






FACEBOOK 





sábado, 20 de setembro de 2014

moietymoiety – 114




há mortes que meia ida ainda não
são voltas que meio chão não faz
tem de tragédias que meias vidas acorrentam roda de fincar
tem lugar que meia biografia faz eleger o imenso indo a catarata
vai ter dia de ano novo
vai ter dia e ano novo, pirata dos meus vermelhos ocos
e meia onda não largará tirar o velho mundo debaixo dos teus pés





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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

janelas para onde der – 11

  

 .para um filhote de morsa com cabelos e pézinhos de gente.








abro a janela para trançar não
os teus cabelos
tranço os meus dedos nos teus cabelos
há essa obrigação quase líquida
abrir a janela
ver a cidade contínua
sobre rodas os barquinhos fazendo fila
abrir a janela e tesar trançar salivar
são tantos os alfinetes na língua
digo
o bananal ao lado não
afundou-se em aborrecimentos
estamos cheias de comiseração não
pelos alfinetes na língua
eu tua cabeça as asas da janela meu sono
chega de disso é um tipo de névoa extraordinária
queremos culpa
queremos culpa
queremos a culpa que rasgue os dias de seus santinhos




sexta-feira, 5 de setembro de 2014

janelas para onde der – 10





no dia em que você morreu
perdi algo que me era essencial
da carne mesmo um braço um prego um rasgo no linho
o miolo aparente bugalhos meus todos alhos uns dentes
perdi algum rumo também como sempre perdi algum rumo
como sou de perder você eu já havia perdido
me machuquei muito a pele os cabelos
as unhas a pele o estômago doeu
tua razão no céu
chovia chove gelo quando você morreu
me enxovalhei matei minha mãe minha cachorra uma vizinha
e eu me perdi n’algo da essência
sôbolos risos sôbolos enganos sôbolos tijolos
o apanhado povo dissidente disse dissidente
uma bússola um mapa uma ampulheta
algum rumo também como sou de perder
não fiz o teu cachecol perdi
uma ampulheta um mapa um caminho de migalhas
me arrebentei
me estraçalhei
mas veja que acidente bonito desgraçado lindo
estou festivamente perdida
e somente aqui nesse tanto de agora
é uma massa imensa que vem faz longe
aqui pelada ralada duvidosa eu sou e parto a novamente ser
brutal besta abobalhada ambígua linda desrespeitável vulcão
parto e sou gentil amarga engraçada chorosa puta santa descontrolada em eternas dietas que não
interditável-você-disse inadiável mentirosa comediante amputável abortável aborteira
excesso escarro de peso de voz de ódio e de inclinação
eu sou corcunda e você morreu eu bato panelas
perdi algo da essência daquilo que nunca a mim serviu
veja que era meu e não me servia mais
eu sou e estou aos desmoldes da esquina por exemplo e você morreu
a pele os cabelos as unhas a pele o estômago a cara morreu
foi fascinante o dia chovia gelo descosturei os bolsos pra caber
havia a cor do dia uma janela
quando você morreu
sim “é preciso amar outros nomes” 
   /o teu já não era esse nome preciso amor/
e sim é preciso esse sol de derreter o mofo que aquele ônibus fez chover
a mala as malas tua mãe tua nuca e tuas palavras
ungidas da ante fome já matada
sofridas erramos mas não aqui
veja que os fantasmas falam e falam pelas orelhas
lembro dum escrito num muro “são bêbados os fantasmas”

uma janela quando você morreu sigo por lá como sou e sigo
janela arreganho: a precisão centrífuga da minha vida enovelada cabal movediça: agora e um pouco além pra frente e para os lados
pelada e hedionda a perder tantos
quase todos os rumos que é como eu sou de perder

sôbolos erros a me carregar por essa esquina me achei
a dois palmos de mim o chão
sôbolos dedos um mundo e vou








            















§§§














e na Coyote número 25/ Kan Editora (Obrigada aos meninos uivantes, Rodrigo Garcia Lopes, Marquinhos Losnak, Ademir Assunção)!
Distribuição nacional (BooksMania, Livraria Cultura, Livraria Saraiva, Livraria da Travessa) pela Editora Iluminuras


terça-feira, 2 de setembro de 2014

moietymoiety – 112





vi a maçã caída na barra do vestido da menina
a coisa ao meio
era amor e era terror
e era sarcasmo infantil
o domador e o leão
abobalhados
a menina ao meio
chorosa
ao meio
sorria
não poderia ser e era
como da primeira vez
da primeira divisão
da primeira noção de espaçamento
e era
era de ver
as sementes todas estavam e estarão

era de ver
e era do amor




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§§§










e na Coyote número 25/ Kan Editora (Obrigada aos meninos uivantes, Rodrigo Garcia Lopes, Marquinhos Losnak, Ademir Assunção)!
Distribuição nacional (BooksMania, Livraria Cultura, Livraria Saraiva, Livraria da Travessa) pela Editora Iluminuras








sexta-feira, 29 de agosto de 2014

moietymoiety – 111




um livro
dois ou tantos olhos
ao meio
de tudo de tudo
um filete do tempo em que eu não nascia
numa acanhadíssima vila
num vale
numa sorte de coisa de argila saindo do forno
junto do pão
e eu via os rostos eles não me sabiam








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§§§









inda chorando a 
juntadinho de poemas meus para a edição 47 
(gadicidimais, Mariza, Silvana!)




e na Coyote número 25/ Kan Editora (Obrigada aos meninos uivantes, Rodrigo Garcia Lopes, Marquinhos Losnak, Ademir Assunção)!
Distribuição nacional (BooksMania, Livraria Cultura, Livraria Saraiva, Livraria da Travessa) pela Editora Iluminuras




terça-feira, 26 de agosto de 2014

moietymoiety – 110




agora que sou homem
posso me coçar na rua
e foder meio melão
como quando sempre quis
foder uma galinha até o meio
como quando sempre quis




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§§§









inda chorando a 
juntadinho de poemas meus para a edição 47 
(gadicidimais, Mariza, Silvana!)




e na Coyote número 25/ Kan Editora (Obrigada aos meninos uivantes, Rodrigo Garcia Lopes, Marquinhos Losnak, Ademir Assunção)!
Distribuição nacional (BooksMania, Livraria Cultura, Livraria Saraiva, Livraria da Travessa) pela Editora Iluminuras





quarta-feira, 20 de agosto de 2014

moietymoiety – 109




para Carlito Azevedo
que me apresentou Ron Silliman
que sabe brincar






qual coisa tem a galinha? mania quebrável, a galinha? quero te ver de perto, senta-te, galinha? uma música e a galinha? Zé e Bob, as galinhas? é adequado? é maldita? galinha atropelada, dizem as pesquisas, durante o tumulto? voou e foi-se feliz da vida? adequada ou maldita? aceita ter pena? você me olha que nem galinha? você me vê com as asinhas para trás? não tenha pena? ajoelha-me no milho? não tenha pena? teus dentes são bons, mas são de galinha? não tenha pena?






(série do larCavoDica a ser postada também aqui)











§§§











inda chorando a 
juntadinho de poemas meus para a edição 47 
(gadicidimais, Mariza, Silvana!)






e na Coyote número 25/ Kan Editora (Obrigada aos meninos uivantes, Rodrigo Garcia Lopes, Marquinhos Losnak, Ademir Assunção)!
Distribuição nacional (BooksMania, Livraria Cultura, Livraria Saraiva, Livraria da Travessa) pela Editora Iluminuras






quinta-feira, 14 de agosto de 2014

moietymoiety – 108




sob meia solidão ela vive
toma meias xícaras de chá
e usa meias palavras com os vizinhos
varre meia casa
e usa meias e meias porque as cólicas
céus, porque as cólicas, porque as chagas
e ela meia
sob meia solidão
a meio quilômetro da caixa de cartas
como se vivesse
sob meia solidão

ela vive







(série do larCavoDica a ser postada também aqui)







§§§




inda chorando a 
juntadinho de poemas meus para a edição 47 
(gadicidimais, Mariza, Silvana!)





e na Coyote número 25/ Kan Editora (Obrigada aos meninos uivantes, Rodrigo Garcia Lopes, Marquinhos Losnak, Ademir Assunção)!
Distribuição nacional (BooksMania, Livraria Cultura, Livraria Saraiva, Livraria da Travessa) pela Editora Iluminuras





sábado, 9 de agosto de 2014

janelas para onde der – 9





o cheiro dos teus dedos parte
ao meio a janela
toma o meu sofá
aflige o meu cachorro
queremos dividir um pássaro
eu sei
quando a gente chora a realidade toma outras vias
o cheiro dos meus medos
é preciso muita coragem pra voltar
depois de todos esses segundos
caroços
lascas
penas
e
se o pássaro estiver calado
canta o cheiro dos teus dedos

dente por dente
chega dessa língua ensimesmada












§§§





inda chorando a 
juntadinho de poemas meus para a edição 47 






quarta-feira, 6 de agosto de 2014

janelas para onde der – 8




com a mão direita eu seguro o meu rosto
com a esquerda eu cravo um lápis no pão
aleluia em pé de guerra

atravessar a moldura duma janela
para lá da coisa que caberia lhe dizer
num dia desses
sob esse céu oportunista
e terei meus dois elmos de volta

com a mão direita seguro um olho
com a mão esquerda cravo o pão na boca



      








§§§





inda chorando a 
juntadinho de poemas meus para a edição 47 
no sítio Escritoras Suicidas 






terça-feira, 29 de julho de 2014

Escritoras Suicidas | Edição 47



Trecho de
incumbência
juntadinho de poemas meus para a edição 47 

do sítio Escritoras Suicidas:




dentro do alçapão


desde tanto
inventar um diabo para ter o ambiente
sob outras intenções
(minha cabeça é pior que o diabo)
outros experimentos falharam
chorar e seguir com a língua o caminho da lágrima
ralar o cotovelo e seguir com a língua o caminho da gota de sangue
ejacular e seguir com a língua
seguir o fio de sol
feito os trevos do antigamente no jardim
aqui
desde tanto
uma rua vazia e japonesa
minha cabeça é pior que o diabo
pior que o diabo que enfio entre as tábuas
as tábuas
desde que tanto cheguei aqui
é o diabo
melhor que seja
digo
a cor que isso vai tomando
sei que estou viva porque me vejo nos olhos do diabo
sei que respiro
porque o tenho tomando meu hálito
sei nada dos meus medos
porque sua cabeça linda, vermelha, tríplice
guarda noturno sonâmbulo diário crepuscular
ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol*
meu diabo
às barbas do meu diabo
suas orelhas amplas
suas marcas nas minhas paredes
nasci para ser umidade cor de concupiscência
pensei
me visto de alçapão e choro
mas estou pelada
mas estou calva
estou feia e fútil
basta
basta quando que sou o alçapão
sou possuída e inquilina
céus
eu sou o alçapão
espia:
o diabo é minha carne pênsil.






* Sebastião Alba






(obrigada, meninas!)