quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

PELICULARES/ Nichos to Blow up on – 8



Um curta sem externas, sem internas, para Nostalghia de Andrei Tarkovsky. 






o pão, o espelho
e o comportamento da goteira
sobre a imensidão na teia da aranha que não;
seus ovos, seus ovos e as meninas de dentro.

tudo o que a música d’água pode afinar. 


a vida é partitura de pássaros.
é um baque na manteiga e pode compulsar.

todas as águas são naves de luz.

eu sou egoísta.
tu és egocêntrico.
e nós somos só nós.

nossa massa, como um todo, é pão
e é espelho
e é o pão do espelho
tomado da faca.

estaremos bem se eu te disser que me confundes?

quando mastigas, mastigas
mastigas, mastigas.
/tua saliva me erra/

Santa Catarina;
Santa Eugenia;
acudam-me: há uma cortina e não há nada entre.
somos eu
a chuva
inda nada entre.
oh, acudam-me já. 


súbito:
acudir-se é acudir à nostalgia dum todo ângulo.
veja:
alguém pede fogo
e dão-lhe água: 



homesickness: DOENTE DE TODA A SAUDADE DA CASA QUE O OLHO QUE FICA VELA.

saudade: COISA QUE SAMBA AOS PUNHOS E CANDELA AO TÓRAX.

Ностальгия: STORDITA VONTADE DE CHEGAR DONDE SE FOI, ERA, UMA ERA. E COM NEVE SOBE O QUE VELA.

nostalgia: VOLONTA INSOLUBILE, CHE NON CANDELA PIÙ.


COME TI CHIAMI?
ANGELA.
ESTÁS CONTENTE COM A VIDA?
SIM.
BRAVA RAGAZZA, QUE O COMPORTAMENTO DA GOTEIRA SOBRE A TEIA É NOSTALGIA COM PULSO E TEXTURA DE CORAÇÃO. VÊ? BRAVA RAGAZZA.





FIM COM FINALIDADE ANTERIOR À TEIA.
EU TE AMO. EU TE AMO. EU TE AMO. 
EU, QUE TE AMO, NÃO DEVO TRISSAR.







§§§







terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Nichos/ Niniréquiemmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm




BEM. 

TAMBÉM HÁ ESTE JEITO DE SE MORRER:
DEITA-TE AO TEU LADO DA CAMA,
DEIXA-TE ABRIR-SE A BOCA
ATÉ QUE NÃO VEJA MANEIRA EM FECHÁ-LA,
NEM COM AZEITE MORNO E OU

MANTEIGA-DE-GARRAFA.












§§§













domingo, 24 de fevereiro de 2013

cabaças/ como explica o que dança em Pina – 6



e se não houver de mãos
a tapar a alegria no meu rosto choroso
que haja vento a favor
ainda tanto cabelo sem direção
se não houver de mãos
a tapar meu rosto de cavala em ré
no enterro desses cascos na areia desse balde
chovam-me arroz
estou noiva e não sei arear
se não houver de mãos
que haja vento
não por favor

que haja vento
ven-to
se não houver de mais 














§§§











sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

PARLATÓRIO/ A Escultura, O Escultor – encomenda n°22




(ao 119° aniversário de Victor Brecheret) 




das tremuladas mãos de Aldo, Aldo, acho que para esta o senhor fica um pouco mais nervoso e Aldo treme e das mãos de Aldo, da pedra dum ciúme velho nasce o guia então de mudos discursos, tal qual feito Aldo, estranhíssima encomenda, respeitosa porém, Victor, um homem de carinhos brutos, desataviado e de cegas linguagens, custoso e de furiosa calmaria, treme Aldo, furiosa calmaria e cego, Brecheret, o homem que também amarfanhava, diga alto, Aldo, Brecheret, o homem que também amachucava.


inda calcula debaixo:


VICTOR BRECHERET
PONTUADO HOMEM
CANTANDO CEGO SOBRE OS OMBROS QUE O FIZERAM MUDO
SORRI
DE VEZ











quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Nichos/ 1998,14 de Julhooo





quero dizer coisas bem pequenas e subjetivas sobre o meu amor por ti. ainda hoje direi assim e assim. olha a minha franja como fica por essa época. eu não sou desse jeito. os céus abertos no cemitério e os pombos, também aqui, no cemitério. nessa época eu ia comprar flores com meu pai. quando ele morreu eu me lembrava, como me lembro nessa época, dessas épocas de comprar flores com meu pai. não vá querer que eu chore. espere. já vou dizer. já está para sair. veja a minha franja, nessa época. vir e ficar e fazer votos. uma coisa bem subjetiva e pequena é esse suspiro que faço só por ti: bandiiiiido. 
agora deixemos meu defunto pai dormir. vem. tenho mais coisinhas pra te dizer.










§§§














domingo, 17 de fevereiro de 2013

игрушки/ Soldados.Pedras.Massa de Farinha.Barro.Pano. – 17









um filme parado
numa gota de orvalhar mato. 

vida côncava!

as crianças se repetem
aos óculos do cinema americano
estamos de novo em 1951
estamos indo aos jardins abandonados
é a festa dos insetos gordinhos

sempre indo e voltando assim:
alguém descuida da cadência do ar
e os passarinhos não se aguentam mais
as macieiras e as donas de casa vão-se acabando, sweetheart
o açúcar não mente
nem mente a canela em pó, não mente o sorvete de creme
os antepassados dos eletrodomésticos
das meias-calças
a qualidade
dos Cardigans, do Corselet, do Blush
céus
a esquadrilha da fumaça!

por onde a esquadrilha da fumaça?

ainda hoje
derramarei meu Martini sobre ti.







                      (fotos das fotos do livro ELIZABETH LEVANTA VÔO, livro de auto-ajuda, por Elizabeth Taylor/ Ed. Best Seller)







§§§ 



















quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Nichos/ PetNicho XXXVI







é o gesto que faz crescer as unhas do urso e logo um enxame de abelhas lhe prega uma pequena peça e o gesto faz crescer as unhas, ele ajeita o topete, tira cera da orelha, coça a barriga, desenha favas e chapéus no lençol e crescem-se as unhas, como crescem.









§§§ 










sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

o juízo disso/ o amparo - 1




sou infantilizada quando o amparo me toma pela barriga e me descabela. 



puxar ao rosto do amparo: nossos filhos serão nossa gravidade. 



estou hermética. há um amparo no meu cabelo. há esse amparo no meu cabelo. 



encontrar amparo num livro ou num filme sobre ou por amparo: corroborar.



buscar pela ternura na palma dum urso: amparo, amparo é um corpo com trejeitos de alma gutural. 



um beijo. porque sem este beijo eu não conheceria o amparo das coisas que molham. 



tenho a medida do ódio, a medida do amor quando do amparo aos meus olhos, a tua cara de cavalo sujo.



precisamos dessa proteção, amparo, dessa tuas mãos segurando o céu. segura o céu pra mim enquanto eu tremo.



quero estar acordada, devo estar dormindo quando o amparo me alcançar as beiças.



ai, perder a noção do amparo, perder-me na noção.



mesmo que a voz queime minha goela. estou sulcada por esse rio de carinhos agitados: amparo.



amparo: uma medida de mundo calando ao desânimo.



pulsa e estica e vasculha o coração e ampara, o amparo.



beijar não é assim, é diferente. é a língua amparando ao corpo.



amparo à beleza dizer que teus sonhos amparam meu rosto.



o viço do pensamento sujo ao amparo da língua e do rumo ao peito, morar num amparo.
 



se o telefone não tocar, é o amparo.



se te ofereço o pescoço, terei amparo nos teus dentes?



na fresca solenidade da manhã, um amparo para a cabeça.



marcar ao amparo com o peso exato das minhas manias. como um martelo ao prego ao pau.



não corresponder ao amparo é o pior silêncio masoquista danado. é danação de dentro e de fora, por cima, correndo todas as vias.



me agarro ao amparo, deixo-me vazar pelas quinas do sexo.



assim coloco a física no dedilhar do amparo das tuas mãos, tão sobre mim.




o costumeiro 
encontro entre o ofício e o tempo 
ou os nossos conspurcados olhos 
nossa putana vista 
a lamber um livro, um filme bom, o amparo ao alcance do queixo. 





quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

игрушки/ Soldados.Pedras.Massa de Farinha.Barro.Pano. – 16









dos dedos das mãos e dos pés
quero alguns
no estreito dos
meus anos nos teus
dos braços
um por sobre o outro e mais esse
minha coxa
tuas ancas
um truque besta de te dar trabalho
minhas costas
tuas ancas
a virilha
e tua cabeleira
meus anos nos teus ombros
minha cabeça sobre a tua
podendo todo o alcance
o observatório
a cozinha
também o banheiro e a quitanda
eu cozinho
você range
no percurso dos quiabos
meus anos na tua boca
dos braços doados às colheradas
uma por sobre
a outra e mais
minha coxa
tuas ancas
um truque besta de dar trabalho
tuas costas
meus dedos dos pés
o passado na borra 

o teu dedo me desenhando no sal
eu sou ilustre
a virilha e uma pinta
eu sou sua cabra
os machos quilos das tuas ancas
a superfície a densidão e a volta
a barba doada ao agastamento
teu fôlego e meu azar

tuas costas
meus dedos dos pés

lisura suja e um truque troçado de te dar trabalho





terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

GnosiS/ Sinais do Quê – 14




          



há coisas escondidas em todo lugar
poucas imagens
pois que estão escondidas
inda a ausência
em tantas imagens
pois que escondidas
e como devemos fixá-las ao acontecimento de que são
apesar de escondidas? 


vidros de xarope
xícaras trincadas
chaves aos molhos
peneirinhas e rastelos
cartas que não foram
cartas que não chegam
cartas 


e que ninguém tente descobrir
pois que essas coisas só podem ser compreendidas








segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

GnosiS/ Sinais do Quê – 13






para fazer um mapa
a dor se hesitará
mas não desanime
não vá desanimar
sofra bastante
e pense no lado de cá
em como a vida se desmancha para então fazer-se
pequeninas manchas fluviais
caia-te todo cabelos pelo dilúvio das linhas
seja pátios, uma fresta ou duas, seja íngreme
deixe-se levar pela fascinação noturna dos olhinhos do gambá
mas não abandone a lama
o impossível sempre alcança
isso no mapa
avança, empaca e fica
firma e finca
pés, pegadas, um tanto de mato
áreas não demarcadas
abocanhe
se não abocanhar não há
pense mosaicos indígenas
fractais iluminados de lendas
deixe o acidente com café tomar seu curso natural ferroviário
ponteie
ponteie tanto
pois que tanto é o mapa quase feito
determine
quadriculados
perpendiculares
e anatomias
agora deita-te sobre o mapa
tome algum sol
alguma lua
tome água
corra a vida 
não é longe
embrulhe tudo
estremos atrasados ao fim
sim
irei contigo cavalheiro
ornaremos juntos às quatro quinas
então ao X



domingo, 3 de fevereiro de 2013

Nichos/ PetNicho XXXV










lhamas
num retalho de pano
e o que fazer com a cara sumida
a cuspir no dia
em frente
com forma de cuia
tantos escombros
um tanto de gesso
sob a hora de morrer
o incêndio
dizer que pegam fogo as dunas
lhamas nas dunas
ou chegar ao fim 


macho de lhama é lheamo

e está pronto o tapete de parede, meu menino





sábado, 2 de fevereiro de 2013

MÚSICA PARA O ORIXÁ/ Iemanjá





o mar
mais forte
dividido em oceanos e rios
cotovelos dos lagos
saliva e suor
com o dever desconhecido dos nós
e pesando também ao coração
dos abismos que surgem
nas costas das meninas na areia da praia
Iemanjá, Iemanjá
desenha a chuva nas curvas da pérola
Iemanjá
samba na água desse espelho
miçangas e palmas
na água desse espelho
champanha e vela
na água desse espelho
barquinhos e panos pra Iemanjá

inté no nimbo do sexo tem mar









PARLATÓRIO/ A Escultura, O Escultor – encomenda n°21



deságua ao cochilo de Aldo ante a imensidão em pedra:





QUERO SUMIR EM ALGO DE BELO
DESAPARECER EM FÔRMAS
BONITAS NOS CULTOS E NAS VALSINHAS
QUERO SER COMO EU PENSAVA QUE SERIA
QUANDO DE MIM
ANTES DA CARA E DA RAZÃO
QUERO SUMIR E ESTAR ALI
NO CIMENTO DA IDEIA
DESCALÇADA DA VIOLA
DESCABELADA E DURA E VISGUENTA
PAPAGUEANDO VARIAÇÕES DO QUADRADO E DO AZUL