quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

CaiXas/ formatando nichos – VI





num pátio largo
reto
branco
encaixotado de sol e sombras 
retas
seco
quase cinza
do quebradiço de folhas secas
sépia
de sulcos vermelhos e azuis
um homem em crises de estadia
não percebe
parece
afinado do nada
quase desmoronando
desmoronado
cheio e oco
como uma foz no segredo
não percebe ao quadro
vê o relógio na torre
outro desenhado de lasca de tijolo no chão
outro no muro de heras
outro no esqueleto duma folha
na cadeira
e nuns fios
que saem do nome do pátio 

LAVARINTO DA FENDA 
não há pudor
também não há despudor
desenho feito do desmanche doutro
não te movas!
ou te fundiras com a paisagem
com a ideia que te traz sem horas
com o fausto do canto
feito dois pingentes
para tuas orelhas
que sagram
o porque da minha saliva no quadro cinza
seco
quase branco
quebradiço
azul e vermelho

     tua lágrima é teu acessório de luxo

     eu não quero te salvar



















domingo, 27 de janeiro de 2013

DIAPHRAGMATICOS/ velas o que capturas, instantaneamente, vês – 4


















teus ossos
me espetam
armas brancas
espetam
onde
assalto ao longo
é pouco
meu amor
encrespado amor
desossado
de corpo
se instala onde
vamos ter mais de nervos
vestida de articulações
espero
dos tapas sem tempo
desbota-me
desbota-me já
quero sofrer nas pontas dos teus dedos









§§§







sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

NICHOS/ Disciplinares – Geografia







de indecência e de feiura
é que eu sou esta outra

passo minha outra mão
no cabelo desigual
porque deixo passar-se o ar
entre minhas outras pernas bambas
porque ninguém substitui convém
porque
sou paisagem nova
mas de memória irretocável
com urubus entre os dentes da frente










§§§








terça-feira, 22 de janeiro de 2013

GnosiS/ Sinais do Quê – 12




qual o signo
deste corpo
o meu
eu
que acabo sobrando ao corpo
como voltar uma linha
a graduação
então outra
e não
como que por trás de mim
com chifres
marfim lustroso
tentando me assustar
como com pouca abundância de mim
sim
meus dedos em torno
umas garras 

meu pescoço
minha tonta vida no osso
ou outra
dois chifres 
e desparafusar a cabeça
arranjar a cabeça no colo e
sabes bem
dizer
coisas que precisam ser ditas
mas com que boca?
e talvez não ser branda
apesar do pouco
talvez então sermos
eu e meu corpo
amparo para antepassados moles amantes

(não tenho boca para nada)
(quero lamber do mundo sob o sovaco do meu amor)



       





§§§








segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Nichos/ PetNicho XXXIV





o cheiro do mar no que via 
três ou quatro baleias-azuis quando ouvia
pelas madrugadas entre os prédios
os ônibus freando 

aos pontos dos ônibus
ouvia
e sorria
e guardava o papel duma bala de anis
no bolso da calça comida
mastigada
mítica

desse misticismo quase azul
de quem chega em casa
fedendo a mar



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

GnosiS/ Sinais do Quê – 11









tem morte que vive no estômago:
liberdade é ter carisma nas mãos:
barcaças, mãos cantando bundas: barcaças:
pescadores dando de guelras:
do mundo, a aleluia ou a nuca dela:
da mó, o pescador metendo os remos pelas mãos:
tem estômago que vive da alegria dos outros: aleluia: aleluia: redes com estrelas: aleluia rimando contigo: a barca corre cada linha metida entre o aro: aleluia no céu, na ponta da língua, entre as mãos.






terça-feira, 8 de janeiro de 2013

PELICULARES/ Nichos to Blow up on – 7








todo o mundo vai jazer em ti
como a este filme antigo
ela, tu, tua bicicleta

/pois que o advento com rodas
 sob a moça
 jamais se teria/

em atividade de tempos entrecortados
como num filme ancestralíssimo
de vibrações e pixels frente à praia de gentes
misturados, os pixels
e levantar-te dum tombo
e cantar suas fotos
as imagens vertiginosas que pode uma só linha da mão
misturados, os pixels

/androides são gruas, grotas, grutas que quero dizer/

oferecidas ao vento
elevada, uma lâmpada japonesa
linda

/pois que o filme é noir
 feito cebola
 feito cebola caindo a grota/

vir dizer e não falar
da morte
da idade 
camadas, quero dizer
feito cebola
de entortados aros
e pelos
agora sim
pólos
trazer memórias para a tua
distante, tão perto, feito a cebola
vocês ao fogão na imagem com plaqueta:

HÁ UMA TRILHA
ESTA PEDRA SOBRE A TUA SOMBRA
E LÁ
IREMO-NOS REVELAR

linda, a imensidão 
luminária japonesa
uma praia antiga
a bicicleta arcaica
o batom moça-de-coração

carimbando todo teu dorso, tua vez, tua vez vai ralando
prometendo-te a eternidade das ostras
vai nacar
já já 
nacarado estará 

/subsídio de inundar esta teia de vidas
 escalar formigas para a areia
 mais gentes para os barquinhos encalhados/

/esse mar/
/esse/

zumbe o dirigente
degenerado carinhoso

/esse não devia estar ali/ 

 e há um apenas
 e há após o mar
 bicos
 picos
 a bicicleta 
 o filme que não 
 camadas em lâminas

eu quis dizer cebola e disse grota

bicyclette andalusia
oignon andalusia
caverne, grotte andalusia 
affection
coupé mes yeux ce matin

/s'il vous plaît/

coupé mes les yeux
ce matinè
suis fatigué de la matinée
coupés
coupés

chamuscado de gentes
o regenerador de amplitudes
desobedece ao governo da casta 
 /já disse das camadas?
  feito cebola?/
morrendo aos breves 

refaire le piétinement jusqu'à

inda a plaqueta final:

NÃO DEU PÉ
QUEIRAM ENCAIXOTAR MINHA MÃO
DUM TUDO É JANELA
ESCALAR MAIS FORMIGAS PARA A AREIA
REFAREMOS O ATROPELAMENTO
FEITO CEBOLA
ATÉ QUE O FILME SE DÊ POR SATISFEITO
REFAREMOS O ATROPELAMENTO
REFAREMOS O ATROPELAMENTO REFAREMOS 
E ATROPELAMENTO






segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

PARLATÓRIO/ A Escultura, O Escultor – encomenda n°20

incinera o cochilo de Aldo ante a imensidão em pedra:







NO ENTANTO 

TODOS OS RESULTADOS TENDEM AO SENTIMENTO 

MÁRMORE, CULPA, VÉUS E COLARES 

AMOR 

SOU UMA BOBA NUM JARDIM DE MARGARIDAS PETRIFICADAS 

INDA EXPLORO 

SUA ÚLTIMA CARA, DIGO, SUA ÚLTIMA IDADE ANTES DA PEDRA 

NO ENTANTO 

SEM DAR NOMES AOS DEFUNTOS

NESTE ENTANTO 






quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

игрушки/ Soldados.Pedras.Massa de Farinha.Barro.Pano. – 15




imputável a palavra da boca
a boca da língua
a linguagem na íngua no verbo 


ai, não diga BELLYBUTTON sem jogar-me fogos à região
quero e não revogo minha condição molenga
extrema, sublingual para conter-me em risos


/ando a rir entre os Borges teus, ai, esses Borges teus/ 


amor, meu botão da barriguinha foi-se que foi
mal acostumado, mal costurado
de cor intragável 


/pequenino foço de alusões pedófilas/ 


e em área remotamente errada
era de ser brinquedo de chás e colherinhas e lã e retalhos com flor
sou agora
sou-me a ti
amputável boneca
e sim
podes me chamar BABY DOLL
que eu atendo

quereria fazer um chá
e vou sorrir
e vou chorar dizendo
             también es como el río interminable
             que pasa y queda y es cristal de un mismo
             Heráclito inconstante, que es el mismo
             y es otro, como el río interminable*









*trecho final de Arte poética
Jorge Luis Borges, El Hacedor (1960)