sexta-feira, 31 de agosto de 2012

GnosiS/ Sinais do Quê – 6




tediosa a cidade que crio quando saio
e nunca suficientes as folhas
não me conformam seus sinais
igrejas e santos
não me reconfortam as rezas dos automóveis
suas horas e pedaços de caminhos
não me regozijam os códigos das aves
a mim, não dizem
e mesmo às vezes, não me atormentam as poças de sangue
nem o ar, acidentado
nem todo o ambiente falido à cinza
nem a vitrinologia e nem as crianças amarelentas,
os hidrantes, os muros ladrilhados ou os pichados a signos que não me compreendem.
gosto mesmo é de cria-la
assim, sem gosta-la, besta, inatingível,
anódina, flácida, terrena e minha, a cidade.









 







domingo, 26 de agosto de 2012

NICHETINHAS/ ninguém é de ninguém – 3




escoro dias e tetas à tua janela.
uns sonhos, uns molhos, bicos.
/não sou de balbuciar minhas manhas/
porém,  em tardes de vento,  grito com as folhas que entram à tua casa.
grito
quando
tens da estrofe vagabunda entre minhas pernas
da flor obscura nos meus plexos.
grito
no entanto, estou para fora
escorando, de fora, ao para fora da tua janela.
as copas das árvores chegam a me aturdir
profundamente.
respirando, respiro a quê, mulherzinha suja?
minhas tosses que não ouço
e que derrubam-me as cores
descem essas coxas
num breve bater de orelhas.
o fumo disso e daquilo
e da madrugada
uma que a mim escurece.
o fumo a riscar gestos puritanos.
a sombra, escoro as sombras dos espigões.
eu, separada da minha própria corte.
esses ecos elusivos, molhados
esses cacos mal afiados
na carne duma madama tão fraca quanto o mole duma pomba dada a água-viva.
/uma pombinha dada/
mas o que estou a mentir?
uma Dona
uma madama falsa e tão fraca quanto o mole duma outra que não a trata.

daí que escoro.
e grito.










sábado, 25 de agosto de 2012

GUIDÃOSxGUIDÕES/ nichos que vão de bicicletas - 2

    Para Carolina Suriani Caetano, moleca dos tempos tombados.





nunca caí de solo
caíamos aos montes
era um sempre andar de bicicleta por cairmos
era a cidade a nos impulsionar aos tombos

vestia meus óculos esportivos
e nunca me chateei em não quebrá-los nas quedas
até em quedas do tipo quedar na brita

/nossas gargantas num só cuspe então secura plena. o fogo macambúzio de alguns arranhões que rendiam manchas que eram animais em desconstrução.
ousadia seria se não nos colocássemos aos tombos.
ter da vida mais próxima da morte e a morte nunca de ousada,
sobretudo, a morte, ai, a prudente morte sobreviveria ainda e ainda a nós/

uma vez
sonhei que caíamos para cima
em lá
onde
uma senhorinha nos servia chá de melissa.
só eu tomei. os meninos não gostaram não e comeram os bolinhos-de-chuva a seco.


       



quinta-feira, 23 de agosto de 2012

GnosiS/ Sinais do Quê – 5





são como sal
por uso e desuso
símbolos
existem
por uma espécie de hidrotécnica dolente

veja meus sonhos, como mais puro exemplo

nada são proféticos
nem apetecem dizer-me a quê

com um punhado de sal chego às salinas
e me confundo com um flamingo caído
e me confundo com sua sombra baixa
e com sua língua
e com suas patas
e com seu punhado de sal sob a dicção

entendo:

POBRE ALMINHA RÓSEA
ALEGORIA DE MINHA NÁUSEA
MIRANDO MAIS BRAÇOS PELÁGICOS
A NINAR ESSE MORIMBUDO SIMBÓLICO PESCOÇO.


acordo e durmo sem braços, num mar de címbalos
borrachos.






terça-feira, 21 de agosto de 2012

GnosiS/ Sinais do Quê – 4







é destino dado
teu maior miúdo o beijo
do quando a gente baba inteiriço
seria até fatal
carecesse do tanto querer
e é um só passear de língua nas ruelas gengivais
facear de língua teu tordo verbo
antes da boca
antes, bem antes, de mim
de surpresa afora
crescer a boca em lábios dos primeiros instantes dos primeiros choros
brotar, brotar e ser
depois ir
tendo de passarinho na boca
e ir originando um sempre que se começa no que saem as línguas embebidas dos verbos machucadinhos, sem asas
origami do que queres, sabes ou não?
de ter amor a alguém, ao graveto caído, a casa alheia
ao amor que dobra-se a si e cresce querendo e ajudando, mas quando não, desaparece
na mesma saliva que untou-se da cor, do próprio verbo.







domingo, 19 de agosto de 2012

GnosiS/ Sinais do Quê – 3






a árvore grudada ao fungo e o fungo ao lodo
com a árvore inda o dia 
na árvore, uns riscos da tua voz
o dia
e há dois ou três segundos
em milênios do dia
idioma fóssil duma historieta fula, tardia. 








quarta-feira, 15 de agosto de 2012

SOUNDTRACKINGMEON/ Dessas Letras Me Tinindo as Trilhas – 2



                  Para OPEN, de Regina Spektor.
Para Regina Spektor em OPEN.






a floresta indo
inda o trem

aberta

diz-me, coloca-me uns instrumentos de ser, aqui
aberta
e atrás de mim, ai, atrás de mim a estrada indo abaixo


a montanha
e lhe seria a casa
não fosse eu
esta suspensão, aberta
de nada valendo a nós os fios
as linhas, as mãos, meus dedos
com esse frio

tanto o céu, aqui e ali
indo abaixo, a montanha

espero
e o que faz esperar
anda abaixo, indo a montanha, o que dela, humano
polindo anseios espera

‘In a night the snow starts falling
And everybody stares
Through their windows at the streetlights
Too beautiful to see’*

a floresta indo no que reflete o trem
aberta
diz-me, coloca-me uns instrumentos de ser, aqui
aberta
e atrás de mim, ai, atrás de mim a estrada indo abaixo 
a montanha
e lhe seria a casa
perpetuamente compassiva, amável
/no sentido de que posso ser amada sem maiores danos/
o quarto que construo para já
através das janelas dos outros
do início das coisas nos reflexos

sabendo a janela
sei-me
aberta, aberta, montanha abaixo, 
            suspensa, too beautiful to see.





*Trecho de OPEN do novo álbumWhat We Saw from the Cheap Seats.

**Fotos da foto de Christopher Frederick.



                                                          Site Oficial de ReginaSpektor





terça-feira, 14 de agosto de 2012

игрушки/ Soldados.Pedras.Massa de Farinha.Barro.Pano. – 8



as sombras cruzadas das árvores
os monstros que fazem. eles se curvam a deitar folias de brinquedos novos, cavalos de balanço, caminhões de lata, cigarros de chocolate, óculos que dão ótimas bicicletas, tecidos com enfeites e cheiro de novos tecidos.
duplicam-se, triplicam-se, triplas, tripas que querem das bananeiras, os frutos mãos.
fazem chapéus, arranjos japoneses, moinhos para DomQuixotes que somos todos no sítio e aos jardins do vovô. 
junto aos bancos de ferro,
espalham bolsas de menininhas pela toda construção. são dublês de braços e tantos,
que tristeza dum deles, tentando alcançar o portão
quando uma gangue de pássaros enche de pousar no braço de contorno da jovenzinha romãzeira
fazendo-a voltar-se toda a si, esquecendo a liberdade interina. 
valha-nos tanta felicidade cã!













segunda-feira, 13 de agosto de 2012

REZADONICHOPESCADÔ/ Voltas Aos Montes – Eugênia






E seguiria para a ilha.
Iria a colocar pedrinhas, das rubras, no teu querido lugar.
Entre as palmeiras anãs e o nosso rochedo, O NARIZ.

/o resto da face, dissesses-te numa vez, é o enterro do homem, olhando fundo-fundo no raso de mim, é o enterro do homem, Eugênia/

Fui e não cheguei à ilha. Seguiria.

Fui direto ao mais profundo que podia e isso a mim dando pé
   do quando as pedras afundaram minha canoa
   do quando teus braços soçobraram meu horizonte. 

Ainda vejo O NARIZ.
Não entendo o enterro do homem.
Coloquei as pedrinhas noutro jardim,
  fiz uma imensa face
  com tudo-tudo
  sem perder do NARIZ as asas.
Do enterro, não entendo nada do homem.







quarta-feira, 8 de agosto de 2012

игрушки/ Soldados.Pedras.Massa de Farinha.Barro.Pano. – 7




Sei que sou
na ventania coisa
prato, colher e astro
e de ser embananado divertimento
eu sou
o primeiro peixe a ser apanhado
posto-me na grosseria da mão pescadora
quero voar feito andorinha
sugo do ar fedendo a sardinha
fuçando a foca à beira de ser galinha
e bibelô maçã, santinha com espada e sorvete
acima do livro rotor
quando
jamais tocarei da música que toquei
quando fui bochechas e trompete
ou bico de chaleira baú
na boca moleque sujinha assim ó: 
Thuruururuuuur...ruruuuuruuuu...ruuuuu...