sábado, 29 de setembro de 2012

PARLATÓRIO/ A Escultura, O Escultor – encomenda n°18




era grande o incêndio
na pequena fogueira
era também de dia de se acabar
no pequeno espaldar
das estátuas mais antigas
empoeiradas de cemitério
então
fazê-las matéria de olhos noturnos, nhô Aldo
que outra coisa é uma estátua senão matéria de olhos
ora, uma porção
de barro
doutras coisas
coisas
gelatina
quer dizer, que tipo de louco seria este escultor que
aquecida a um ponto
deixe esfriar
louco?
assim como os homens
dizia
já está esfriada
a gelatina, nhô Aldo,
as ranhuras ficam tão limpinhas.
e era duma verdade
bebia bagaceira
e explicava
depois de dura, como com os corpos, a gelatina
ah, sim
falava atrapalhado
as formigas como que terminavam seu trabalho
traçando da gelatina o salário em sua mais antagônica forma
sobravam perfeitas ranhuras
como que novas
como que ontem, saídas das ranhuras da minha conjectura de homem de fé
homem de barro
e doía-me um caco disso
e se viram meu nariz torcido
estátuas, cuias, terrinas, formigas
deu-se a vida e a dura morte duma razão
não machuquem seus plexos
os da razão
preferia ser antigo
preferia ser museu
lavar
lavrar
do amplo nos sentidos da noite negra, das sombras que umas estátuas fazem nas outras, nhô; gelatina e formigas.
quantas
explicava
quantas?
falava atravessado. era de atravessar. a limpadora de estátuas.
quantas;
que não machuque seus plexos.
quantas. essas. não as esfumadas. essas.
e bebia bagaceira.







2 comentários:

  1. Quanto mundo em seu mundo, menina Carla!

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  2. Eita moça, que belezura de barbareza. Bárbara reza, que belezura.

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