domingo, 9 de setembro de 2012

Nichos/ Cor de burro quando Amarelo?






costurando tua camisa
/tão cru o algodão quando angustiante/
hoje segurei com tantos cafunés
a amarelada carta, um quase enxofre
amarelo velho, velhos dedos nela
/toda velhice é amarela, todo amarelo é decrépito/
despachada do quando antes de partir
mão de toque de mão de toque,
tocaste meu punho
dizendo abra quando lhe assentar
e hoje, veja você, me deu de abri-la.
mas não.
vou a uma cidade tão antiga quanto distante
e naquela vez, quando dissemos adeus
já tinhas do semblante velho, amarelo
disseste, fique com Deus, este antigo acolhedor de nós.
será um dia claro, quando assentar a Deus, esse amarelejo acolhedor. abra a carta quando lhe for.

é dum possível trato que nunca voltemos
e que nunca voltemos a ser negrinhos, crioulos, como fomos.
a cabeleira já indo dum branco amarelento.
uma tarde indo a outra, amarelas.
e a carta sobre a pia, ao lado do peixe descamado, amarelo.
o rio amarelo
a mal alinhavar dum futuro turvo
um futuro danado a ferro e passível de envelhecimento
onde nem o explicito tom
encontra-te, onde a carta selada a cuspe, é matada a facadas do ferrugem atemporal, amarela, aos olhos do peixe morto e atônito, sépia, apodrentando-se em cor.







§§§







3 comentários:

  1. Carlota, quando li o título, ri. Mas depois sentia tanta melancolia e delicadeza nessa fuga em dor.
    Bonito, guria.
    Bonito.

    beijoss

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  2. Tem tanta coisa aí, que precisa respirar e ler de novo, depois de novo. De qualquer forma, Carla, vc consegue ir colocando coisas dentro das coisas, tipo aquelas mensagens secretas nas pinturas do Da Vinci, ou melhor, são tipo umas frestas prá gente espiar por elas...

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  3. Impressionante a perfeita costura da cor aos fatos.

    Gostei muito dos teus contos poéticos, são estruturas imprevisíveis, criativas, imponderáveis. Parabéns!

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