segunda-feira, 14 de maio de 2012

PARLATÓRIO/ A Escultura, O Escultor – encomenda n°12



Então onde fixar um Homem de Barros impelido a águas?












  
   
















   A vida inteirinha pensei esculturando, falava moldando, lixava o que dizia, ia talhando corpos e no corpo das pessoas  que sim e no das que não me ouviam. Aos oito, iniciei a obrar um Manoel de Barros estatuado dos tantos e dos todos tipos de barros que deviam de haver cobrindo o Planeta da época e É P O C A era coisa entalhada em pedra ruim e com filhotes de pterodátilos e ninhos por sobre as letras. Pterodátilos, na É P O C A, eram os talhadores de letras que nem, até ontem mesmo, eram as datilógrafas, daí esculpe-se a semelhança de letras, quase anagramas mesmo. Anagrama é a análise que se entalha em relação aos gramas que pesam a cara da estátua que quebra um OVO de medo ou um OVO de conflito na cabeça do passante no cemitério.

   Bem, hoje terminei Meu Manoel de Barros e insulta e ou enaltece a mim, mais enaltece que insulta, a maneira com que Meu Manoel faz nenhuma força em ser a outra ou aquela outra ali, entre as outras estátuas vizinhas.
   Dei-lhe um chapéu-coco e abri-lhe os braços esticando-os longa-longamente a que caibam quantos pardaizinhos ou pererecas ou chuvas ou silêncios convir.
   Sob os braços fiz rentes penicos feito miniaturas de galerias de esgoto, com mini-grades e tubos e caminho para fluxo do esgoto humano.
   Chumbei no beiral do coco e da minha própria escrita de ferro e honra:
              São Manoel Wenceslau Leite de Barros,
              pois que de todos os Barros
              o que o Santo inda prega.



  
    



Manoel de Barros


PARA ENTRAR EM ESTADO DE ÁRVORE É PRECISO
PARTIR DE UM TORPOR ANIMAL DO LAGARTO ÀS
3 HORAS DA TARDE, NO MÊS DE AGOSTO.
EM 2 ANOS A INÉRCIA E O MATO VÃO CRESCER
EM NOSSA BOCA.
SOFREREMOS ALGUMA DECOMPOSIÇÃO LÍRICA ATÉ
O MATO SAIR NA VOZ.
   HOJE EU DESENHO O CHEIRO DAS ÁRVORES.
           Manoel de Barros/ O Guardador de Águas
           em O GUARDADOR DE ÁGUAS.




HOJE COMPLETEI 10 ANOS. FABRIQUEI UM BRINQUEDO COM PALAVRAS. MINHA MÃE GOSTOU. É ASSIM:
DE NOITE O SILÊNCIO ESTICA OS LÍRIOS.
           Manoel de Barros/ Diário de Bugrinha
           (Excertos) 1925





ISTO PORQUE A GENTE HAVIA QUE FABRICAR OS NOSSOS BRINQUEDOS  (...) ESTRANHEI MUITO QUANDO,  MAIS TARDE, PRECISEI DE MORAR NA CIDADE, UM DIA, CONTEI PRA MINHA MÃE QUE VIRA NA PRAÇA UM HOMEM MONTADO NO CAVALO DE PEDRA (...) PRA MIM AQUELES HOMENS EM CIMA DA PEDRA ERAM SUCATA. SERIAM SUCATA DA HISTÓRIA. PORQUE EU ACHAVA QUE UMA VEZ NO VENTO ESSES HOMENS SERIAM COMO TRASTES, COMO QUALQUER PEDAÇO DE CAMISA NOS VENTOS.  EU ME LEMBRAVA DOS ESPANTALHOS VESTIDOS COM AS MINHAS CAMISAS.
           Manoel de Barros/ Sobre Sucatas
           em MEMÓRIAS INVENTADAS (livro de se lamber e com lindíssimas iluminuras de Martha Barros, passarinha filhote do Poeta).








          e tem a  Fundação Manoel de Barros!

3 comentários:

  1. Carla, você tem um senso estético admirável.
    O seu blog é personalíssimo.
    Não se parece com nenhum que eu tenha visto. E vejo muitos.
    Adoro seus posts!
    beijoss :)

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  2. Ri tanto com as traduções no Pra Mimi Dormir :)
    Abre pra comentários lá.
    Meu river e eu queremos!!
    Beijoss

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