terça-feira, 26 de abril de 2011

Nichos/ Paris, 24 de Janeiro de 1920




Como esculpir um amor furado pelo que retesa e pinta o do olho? Ah, um manto!
Eu tinha ciúme do que ele pintava, eterna claridade na que cabem gentes em gentes.
Eu tinha ciúme do que ele pensava, clara interminável vida em silêncios poentes,
eles todos querendo ouvi-las,
as curvas do teu pescoço
no legado contorno;
teus óleos sobre pedras
pedras sobre telas sob o quebradiço
eixo e manto da tua arte, um manto,
desusado respirar, macho, tortuoso,
  Cariátide! Cariátide! Um manto! Um manto!
nos olhos cheios de umas gotas parideiras
correndo a boca suada em bálsamos malditos.
O oco no que cabe o novo antigo teu
fálico culto ao culto de Artemisa de Cária. Teu.
E eu tinha ciúme do que ele via.
Eu morro de ciúme daquilo que ele bebia
em fazer do corpo um outro nicho do que se sabe por harmonia.
Um manto, um manto. Meu véu.





inda de um nó dedicatório. Esse. 

3 comentários:

  1. Não tenho palavras, de facto.
    Fiquei assim quando comecei a ler Fernando Pessoa.
    És diferente, claro. Mas a estupefacção é idêntica. A minha...
    Beijo-te, poeta maior.

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  2. Mulher!!! Fico sempre muda quando te leio. Acho que por isso nunca comento... :) Beijo.

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