quarta-feira, 24 de agosto de 2016

a metáfora mais gentil do mundo gentil - Edições Macondo - LANÇAMENTO











canja


em expansão
o ódio o amor
ainda que nada nada
em água em expansão
um banheiro em pleno ódio
onde jaze teu rosto quando
fundo aqui um amor cheio de ódio
o banheiro no ódio
você na banca de jornais
eu a ronronar alhos curry no banheiro
ódio e preces
um banheiro para o ódio que
o ódio que se come cru
abrir um banheiro para o ódio
ao ódio tudo porque o ódio
busca toda a satisfação o gosto de tudo
você na banca de jornais
eu na briga onde espero por ti
temperos gosto receitas
um deus faria o mesmo eu sei
pois deus faria o mesmo e fez
você na banca de revistas com ornatos para interiores
um banheiro todo para o ódio que te espera
há anos
há gerações
afio os punhos empunho a faca
como cortar um ovo meu deus do céu dos interiores
enquanto o jornaleiro faz lucro faço banheiro
quem nunca
jesus maria e josé
esfaqueou uma galinha
morta na pia borrada de creme dental
não sabe o que é o ódio de um amor tão macio
suculento
quem nunca meteu alhos pelos furos na bendita
quem nunca escorregou junto do choro da baba
quem nunca se machucou num tanto amor
quem nunca morreu no banheiro cravado no ódio da espera
amor
quem nunca leu nesses olhos a manchete ordinária
quem nunca amolou um garfo nos dentes do todo ódio
tamanho banheiro em pleno ódio
preces
um banheiro na cozinha em pleno ódio amor
em expansão
se esse banheiro fosse um cofre
se todo meu ódio fosse esse ladrão
















O LANÇAMENTO:



a metáfora mais gentil do mundo gentil 
(de onde o poema acima)
será lançado
dia 25/09 a partir das 22h (AMANHÃ!)
junto do evento maravilha que a Macondo realiza
periodicamente 
o
Eco - Performances poéticas 
no Café Muzik
Rua Espírito Santo, 1081 - Juiz de Fora, MG


O LIVRO:


Uma das poetas mais instigantes da nova geração chega às Edições Macondo trazendo uma "poética dos banheiros". A metáfora mais gentil do mundo gentil, primeiro livro de Carla Diacov editado no Brasil, é um apanhado íntimo de situações e registros de uma voz espantada e eufórica, que corre linhas como se deixasse aberta a porta do banheiro público e chamasse os leitores ao redor.


Ilustração da Capa: Anna Mancini
Revisão: Anelise Freitas
Número de páginas: 40
ISBN: 978-85-921140-2-2


SOBRE A AUTORA:


Carla Diacov é uma poeta brasileira nascida em São Bernardo do Campo em 1975. É formada em Teatro e possui poemas publicados em diversas revistas no Brasil e em Portugal. Amanhã alguém morre no samba, seu livro de estreia, foi publicado em Portugal, em 2015, pela Douda Correria (pedidos com Nuno Moura no miasoave@sapo.pt). 
Ainda esse ano lançará Ninguém vai dizer que eu não disse pela mesma editora.






para comprar
a metáfora mais gentil do mundo gentil:







(release mais gentil do mundo gentil de Otávio Campos.
fizemos esse livro com muito amor, com todo carinho, através de um caminho onde somente lindas surpresas. todo meu coração com Anelise Freitas, Otávio Campos, Anna Mancini e os Maconders que ainda não conheci. amanhã seremos! OBRIGADA, queridos!) 






(e aqui a matéria que o querido Mauro Morais fez para a Tribuna De Minas)

abra, por favor, em outra aba: a leitura fica mais confortável!





sexta-feira, 12 de agosto de 2016

dois pontos pescoço – sou a santa do nicho pescoço - quinta leva






:
sobe a cortina:
um pescoço invertido no fundo da colher
sopa pela metade
o casal que não se fala mas que tanto é salteado pelo
cenário:
o saleiro:
ENCONTREI MEUS DEDOS DEBAIXO DOS OLHOS DO MEU GAROTO
três janelas embaçadas: uma janela
o cão acelera a noite
faz existência mundana debaixo da mesa
uma duas três quatro cinco seis sete pernas
a montanha baça fura um lençol de nuvens
linhas dum fiat: ele que sabe o carro pela luz na cortina
dois sanatórios entre o casal uma cidade adiante o museu:
um só lustre cangaceiro cauterizando gráficos abertos
nos pescoços
um invertido no fundo:
ela que sabe a pele a casa pelas luzes de fora:
TOMBE O SALEIRO MOLHE O PÃO ENCONTRE-ME ONDE A AFRONTA
alguém à porta
alguém à porta para sempre à porta

colher sobre colher sobre louça suja de abóbora
dorme o cão
dorme a chave na gargantilha
dorme a planta a marcação a deixa dorme o cenário
dorme o garoto que trouxe uma santa para o jantar









:
estico o pescoço para fora da janela
mesmo correndo o risco de ser
atropelada e ter os olhos furados por um pardal
estico o pescoço para dentro da geladeira
mesmo correndo o risco de ser
degolada pela porta e com uma cenoura entalada
no verbo
estico o pescoço para além da linha da calçada
mesmo correndo o risco estico o pescoço
para dentro do livro mesmo correndo
estico o pescoço para lamber um envelope
estico o pescoço para alcançar os olhos no fundo da bolsa
corro os riscos porque é preciso um quase
de morte para guarnecer o sono
estico o pescoço para além do pôr do sol
mesmo correndo o risco que mais gosto
de morrer esticada presa pela mandíbula
mordida àquela maçaneta em penny lane



















:
respeite o pescoço
vieram de longe construir
ossinho sob ossinho sobre ossinho
engrenagens e encaixes e vícios
o alinhamento
joujou!
os planetas a gravidade magnetares quasares
pulsares blazares
é grave o estado
sempre
uma cabeça para manter tudo em desassossego
fumaça e ataques de paixão
não respeite a cabeça que não respeita o pescoço
é grave
vieram de muito longe cruzaram nevoeiros e a morte
trouxeram
joujou!
trouxeram
fios e motivos e o torso
dois braços com mãos para coçar
nunca desrespeite o braço que tenta a esganadura
respeite o pescoço:
motim de desejos sobre pernas
motim de orações súplicas
motim joujou!









:
o pescoço segura
o queixo segura
o pente
as mãos juntam os cabelos
o queixo deixa o pescoço
quem larga o pente?
não importa
lá fora tem mais disso
pessoas delegam ao pescoço
pessoas delegam ao queixo
pessoas delegam ao mundo toda distância
entre a língua e o pirulito

meu pescoço segura um braço
meu queixo segura um braço
as mãos juntam os cacos
antes de furar os olhos de um anjo barroco demais



















:
não me sinto tão
bem nunca me senti tão capada
não tenho a memória de estar
vibrante “As they say on my own Cape Cod”
sinto que deveria ter me dedicado ao
arco e flecha como dediquei o pescoço
à leitura de teorias UFO
acordo com essa pança cheia de melancolia
olho minha mãe me olhando
minha cachorrinha me olha olhando minha mãe triste
já fui pega olhando uma lata
de molho de tomates no lugar errado
o rapaz me pegou pela mão perguntou meu nome
perdida mora por perto está sozinha
entre ervilhas eu disse
o molho entre ervilhas
comprei caqui mole e bistecas de porco
comprei a serralheria dos ouvidos açougueiros
nunca me senti tão amputada
o caminho me levou até minha mãe
minha cachorrinha olhando minha mãe triste me olhando morta
acho que seu pai tinha isso que você tem
e isso veio da conversa com a psiquiatra
isso não tinha CID e eu tenho pensamentos mágicos
trocamos a cidade a psiquiatra
me sinto bem pior
agora que sei ser vibrante com a não compreensão
do tigre CONVIVER
sei e posso e alcanço falar sobre minhas deficiências
sobre meus distúrbios
e isso assusta muito quem não me vê babando
errando as pernas letras assusta não conhecer
devo ser mesmo esse caqui mole olhando
a lata errada nos mercados
carla
ninguém fala moléstia no poema
carla é só uma lata fora do lugar
carla
“As they say on my own Cape Cod”
a vida é bonita e cheia de coelhos com trevos entre os dentes
o rapaz mais famoso da minha estante
me puxa pelos cabelos
perdida mora por perto está sozinha
uma lata errada
“a loucura é portátil”

é claro que a lata não é errada
carla e a lata
“As they say on my own Cape Cod …
partners in prosperity.”









:
enquanto olho a lata
a mão no pescoço
uma lata de molho entre ervilhas
o rapaz perdida mora por perto
cheiro de caqui longe
mole como o pescoço mora
tudo longe cheira perto perdido
óbvio como óbvio: a lata não é o erro:
errado estar vestida em organza amarela
frufrus para os pescoço:
quando você olha muito tempo para um lugar só
a sensação é a de que o pescoço está inclinado
para o lado sombreado da coisa olhada:
entre ervilhas
disse
moro entre ervilhas, tyger
pescoceio o molho
figuro ser uma metralhadora: guerra entre passos, tyger.









:
esquisito bom
morrer os olhos ali no canto do monitor
puxar com as guelras das pontas dos dedos
a blusa que vem de fora esquentar a mão infanto juvenil anciã
friorenta limpar uma lágrima de sono
bater no pescoço os dois
sinos de O PATRÃO NOSSO DE CADA DIA
com a outra mão
tenho umas cinco quando não preciso
rodar pela cordinha o pendrive quebrado
com tudo isso de mão eu poderia me desfazer
do pescoço mas com que massa os olhos pra morrer
ali no canto
esquisito mesmo bem
largar o mundo
derramar sem ver o leite no pires:
esse gato que não chora me assusta um tanto

tem dia que nem o dia comparece
abandonar angústias para fora da janela
injusto com os meninos da pelada
eu sei
meu pescoço sabe se dói
minhas dezoito mãos para não fazer a paródia do dia:
eu solto o mar no fim da pia
perdi a vida o padrão nosso de cada via e
flauta flauta flauta flauta
uma para cada pescoço que nunca soube o tempo
do tempo da música mas ri e depois chora
de sono:
sono:
o segredo escondido na cordinha da angústia quebrada:











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(miasoave@sapo.pt)






segunda-feira, 8 de agosto de 2016

bip - you win again





mania
me chamava de mania
mania vem cá ver o leite da fervura
olha lá um acidente
um ônibus atropelou um hidrante para
não atropelar o gato preto
mania presta atenção
vê a senhora que desce cambaleando o busão?
bateu a cabeça no marido e
onde estrará o frango assado do domingo?
mania mania não me engana mania
olha bem olhado isso aqui é prêmio
estamos no quinto andar e temos um postal vivo
de uma sorte grande
a senhora continua cambaleando vai entrar aqui
já passou a portaria quer apostar?
mania corre ver o olho mágico a
senhora vai aparecer ali em cinco ou menos minutos
mania mania algum sinal da cambaleante?
entrou ao apartamento da frente
arrastando pingos de sangue da testa
mania vista aquele vestido pink e devolva a flor
de papel que te fiz
vamos levar o gato uma bacia um caderno três canetas
a mala com selos achocolatado lacrado maquiagem
diana ross dionne warwick bee gees
meu coração é seu você sabe
ó mania
mas a tarde terá dias demais para essas bobagens

e nos mudamos a contar selos e higienizar a testa
da viúva sem o frango do domingo
















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(miasoave@sapo.pt)





sexta-feira, 15 de julho de 2016

bip - nascida para ser boa





caminhar pelas linhas dessa rua
numa tarde de feriado nacional
sequestrar o momento da pomba sobre o dedo da estátua
lamber o caminho do sorvete derretido derretendo
/saber que me olham com horror e gostar // ah como é bom ser terrível/
manchar a manga da camisa que você me deu
imaginar todas as possibilidades do pistache
com tudo do propósito
jogar a cabeça para o lado
encarar o casal de formigas
forjar um bico de desaprovação
sentir formigar os olhos na separação
/saber que me olham com horror e gostar // ah como é bom ser terrível/
voltar as linhas da rua
tocar seu telefone que toca sua secretária
eletrônica
oi sou eu
quando você foi embora
levou junto aquela camisa que me deu
procure por favor tenho reunião na quarta
e estou sem camisa para a ocasião e isso n bip

assistir ao último capítulo da novela
usar meus poderes para que Alberto morra
que Solange passe seus últimos minutos no
colo do cirurgião plástico e que as crianças
voltem para o orfanato











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quinta-feira, 30 de junho de 2016

dois pontos pescoço – sou a santa do nicho pescoço - quarta leva






:
o pescoço errado
e o pescoço de um talvez certo
o errado pende para frente
procura pontos amassados ondas
rugas manchas na camisa na calça na calçada
descosturas fios de cabelo desalinhos
o errado pende ao lado esquerdo
quer ouvir o estalo do caramelo
faz dois carinhos no ombro puxa o barulho dos pelos
do intervalo para o intervalo em ser pêndulo
o errado
passa pela feira e sabe a larva adequada para
cada legume feio
:todo legume é muito feio:
sabe o coração doente da alcachofra mais bonita
o lado apropriado do escorregão da casca sob o homem da banana
o pescoço errado pende para qualquer lado
pesa uma bobagem e dez mil mais
se destronca em ângulos inimagináveis quando
escuta a louca da rua da louca
canta o canto do orixá inventado a nananã do belo punho quebrado


: o pescoço errado tem um corpo para cada vez
: o pescoço de um talvez certo tem a vez quando pensa mãos no pescoço
: o pescoço correto tem uma maçã mofa na boca
grita pelas orelhas
atola os dedos na cabeleira cheia do barro
enormemente sintético
perfeitamente acabado







:
pescoços
uma trança de duas cabeleiras
pescoços
minha intimidade chasca por essa trança:

ninguém come um pescoço vivo







:
visto uma cueca pela cabeça
ora ora
preciso de mais um pescoço







:
visto meias sofisticadamente masculinas
ora ora
sinto calafrios rumo ao pescoço
preciso de mais umas pernas na cintura:
fui indevidamente comovida por essas cortinas:
preciso de botas e de um colar de esporas







:
acordo com uma gravata a meio mastro:
minha coxa esquerda
ora ora
que chá de butinas e cílios
hoje não preciso do meu pescoço:
cooper pela tardinha por orlando pela tardinha














:
o tamanho do beijo não alcança
o pescoço
faz-se uma escada mas ainda não é isso
faz-se uma cadeira sobre outra cadeira mas não
planta-se uma jabuticabeira mas não não
não dá tempo não dá passarinho que chegue


o tamanho do beijo não alcança o pescoço
e é isso e ponto e é carne e é osso o tamanho do beijo não alcança
o pescoço







:
o pescoço da boneca
tem dois buracos para encaixar
uma gargantilha de náilon com um só paetê verde
como pingente que de pender nada faz
os cílios da boneca estão cortados
uns arrancados
a boca da boneca está pintada para além de suas
fronteiras num tom de vinho avinagrado
uma boceta foi desenhada onde um sulcado
estranho indicava o caminho do cu
a perna esquerda encaixada no lugar da cabeça
a cabeça no lugar da perna
ESSE BRAÇO ESTÁ MAIS PARA PESCOÇO
e mais dois buracos para a gargantilha
a boneca loira tem os cachos pintados a tijolo molhado
ESSE PESCOÇO ESTÁ MAIS PARA O DESENTENDIMENTO:
meninas conhecem melhor do desembaraço
meninas conhecem melhor dos desencaixes
meninas desconhecem melhor os confins e os meios
meninas infringem com muita propriedade carinho e satisfação







:
sinto que se eu começar a fumar
meu pescoço fica mais
se eu começar a usar umas golas
meu pescoço fica mais e um pouco menos
se eu abusar de cremes com o tal ácido
meu pescoço fica menos e meio
se eu prender meus cabelos assim
sinto que se eu começar a usar longas cigarrilhas
meu pescoço fica mais:
olha
um dia te pago um café e te explico direitinho
sinto que vai ser um plano nosso:
olha:
a jugular fica louca: louca:








:
no coração do milagre
estará o bonde para levar os olhos
encharcados até outra dimensão
assim será com todos os milagres
todos com a óbvia
exceção dos milagres acontecidos ao pescoço
a esses milagres não é apontado o coração do milagre
nem o bonde
os olhos ficam e ficam secos
aconselha-se dar banho
uma colher de mel com espinhos
deitar orelhas sobre o assunto sem tocar pianos sobre a dor
e trocar os curativos de 40 em 40 pulsares
no coração da desgraça


um colar indiano pode fazer tudo isso e muito mais
que minhas pegadas sigam o rumo da descrença
menino jesus







:
significativa
a volta do pescoço ao ombro aqui
não perguntei
como bem ensinou mamãe
deixei o pescoço dormir
fiz algum carinho dei dedo para chupar
esperei esperei
tanto que esperei
desperto com um pescoço para chupar
estou no colo da esperança viva
e tudo isso ainda me é lógico demais











(imagens: alvejante sobre fotografia imersa em água (fotografia original de Camila Fontes). eu, como Ophelia da série de Ophelias que faço aqui)










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quinta-feira, 2 de junho de 2016

dois pontos pescoço – sou a santa do nicho pescoço - terceira leva






:
meu pescoço tem uma
corda mais verde que as outras
é com ela que sonho você de novo
desperta diferente
num pulsar cerimonial
me dava bronca por falar com o gato que não temos
depois me dava bronca por comer olhando pra cima
e me dava bronca por ver que fico verde com as broncas
e me fazia toda boca mordida de birra
e me cheirava e me dava mais uma bronca
e me colocava sentadinha no banco da quina
e me falava de algum planeta e me
dava bronca porque não sei mais do planeta
me colocava sentadinha olhando o relógio da igreja
arrumava meus joelhos e meus dedões meu queixo
pense
pense nas formigas na boca do gato amassado
a corda mais verde que eu
ai que raiva
cerimonial diferente
serpente feia
pescoço cagão






:
as xícaras postas
e há outras bocas outras línguas outros dentes cariados
outros buracos dificultados
dentistas mais chistosos
dentaduras de pérolas
jaquetas de couro de bolsa de madama
pontes levadiças com engrenagens rockabilly
na bestialidade rebelada do chá
o antigo gosto pela sacanagem infantil
arrancar a casca da ferida
por debaixo da assombração
outras culturas de chá
a composição perfeita da porcelana
digo
os ossos que fazem a cama
sob os lençóis de ontem
xícaras bonecas volição
um torrão meu três nossos
meu pente cariado de nylon
tudo de açúcar gordo
o rosto da boneca cariada de beijos
o jogo de chá parece o jogo
os ossos que fazem o jardim
impossível curar uma boneca zarolha dos brancos

alice nunca teve pescoço
morreu comendo um bule de marzipã

colherada de silêncio:

esse charuto não é inédito
pass the fucking ashtray tea set, doll















:
perfeito
diferente molhado
o primeiro pescoço que eu soube 
saindo da onda
me adora me faz adorar a onda
desentendida entre tanto de nível e espuma
eu via um barco no céu
via uma ilha em chamas
sabia o perfeito molhado
me via por detrás e nua
meu próprio pescoço 
aparador de ganchos
aparador dos tentáculos dos cabelos todos
meus seus do marinheiro no bico da gaivota 

perfeito molhado salgado
o primeiro momento me adora diferente
se me sabe ave desengonçada? 
se me sabe agasalho afogado? 






:
vou fazer uma tradução
para separar da boca a oração
não é uma prece
e eu nem queria fazer a tradução
queria meter o pé na boca de maria chupa dedos
mas faço a oração
gosto de fazer inutilidades para o choro
separo da boca assim: 

contudo
meus deuses e pajés
o pescoço de maria chupa dedos
descreve perfeitamente e com desmentidas honras
a própria tradução feita na lata para a convulsão que se segue: 

meter o pé no picho: 

MARIA CHUPA DEDOS MORA AQUI
QUEBROU MEU PESCOÇO E DEU-ME
MORNURA AOS PÉS 

e a tradução do picho
que também não é de caber na boca
é uma prece: 

MARIA CHUPA DEDOS ME DEIXOU ENTRAR
MATOU MINHA LINGUAGEM PELO PESCOÇO 
DEU-ME
LÍNGUA AOS PÉS 






:
tenho uma memória inquieta
tenho um pescoço de criança
conforto em lã com cheiro de avô
lavanda 
canela com leite morno
nada mau
diriam
para uma antiga casa abandonada
nada mau
dizem
nada nada mau
comenta quem acabará por morder meu pescocinho mofo 






:
o pescoço sabe esperar
pode fazer esperar a cabeça 
espera a lâmina
espera 
espera o fim da piada e espera até o último vagão
faz a cabeça afastar as orelhas mas espera
é o dilúvio não é o dilúvio
espera
o pescoço é filho de uma outra época
áspera espera 
o pescoço é filho de uma outra puta
tempo bom 






:
ofereço a mão cheia de sal
a vaca me faz mais veado
me oferece o pescoço como calço da manhã
a vaca me faz mais flechas
vou bem de troca
vou nada bem de troca
a vaca me oferece o balanço
o cheiro o pulso o alvo
o sino no pescoço:
é tempo do couro serial
a vaca me faz mais mal passada 
a vaca me veste de toalha xadrez
a vaca faz da minha cara uma fotografia 
esse mínimo pássaro 
esticando pescoço
colada na cabeceira duma cama forrada de vaca
malhada de manhãs descalças 















:
no inverno
vou jogar meu pescoço para trás
largar um pensamento horrível no cúmulo
de uma pedra sob o sol
faço por você
mostro um pedacinho da minha arquitetura
por você
para que você não fique com a impressão
e sim com a certeza:
não sei lidar com meu próprio sumiço
com a destruição
palmo a palmo
daquilo que em nós dois
soma estações tectônicas com
flores daninhas entre os desencaixes






:
tenho um meu pescoço
todo em folha
responde ao vento mas gosta da ciência humana
insiste
mas
gosta muito da ciência humana
VENHA VENHA
MENDIGUINHA EM CHAMAS
POUSAR MINHA NUCA
FAZER PROMESSAS QUE ME REINVENTAM LASSIDÃO






:
dor de garganta
é também sintoma de medo
pois tenho medo
dos milagres acontecendo
dos olhos gordos sobre os milagres
tenho medo dos milagres testemunhados
mais ainda dos milagres correndo bocas escovadas
alvejadas azulejadas
dentes ajuizados
amídalas cheias de vida e de xarope do pólen mais vivo que abelha viva
pescoços esticadinhos
vou morrer de dor de garganta porque tenho medo demais
me sinto pervertida hoje
e como me dói a garganta
sinto nos pés o gosto da passagem do palavrão que não sai
não tem onde ir
tenho medo e não tenho bolas para
relocar o pescoço
a garganta
e admito:
preciso morrer dessa dor






:
você partiu para o outro único país
seu pescoço não
e nossas conversas sobre fronteiras
ainda fazem caber flores frescas e pétalas
guardadas entre páginas
escrevo esta carta como quem pede desculpas
mas não lhe devo desculpas
escrevo esta carta e lhe digo
agora é tarde
ela não te ama
eu não amo você

fiz uma ilha nessa história
tenho um par de orelhas comigo
então estamos em quatro
então estamos em seis porque
além de calcular a areia
você só sabe falar de um órfão que virou poeta depois de ser
expulso dos correios por morder um postal do cristo redentor
então estamos em quantos afinal?
ai
essa ilha que já não cabe em si por usar toucas de lã carneira






:
veremos
se é escrito o novo ar antigo pescoço
chega ao estirar do sol antigo
move-se com ele
descobriremos
quase um flash depois
que a pupila
é o tempo de saber e de errar
se é escrita uma nova sombra antigo pescoço
chega ao espirar
move-se com o sal da pupila
veremos
estaremos juntos dentro do estouro da luz






:
com a mania
de cascar papel de parede
abri um pescoço em flor
um telhado para os cabelos
c’uma dessas minhas mãos
fiz igualzinho
outra
com a mania
atravessei sem ver a goela ferida
seca
céus
é a hipoteca
e fico olhando como quem deve os olhos
ao diabo
mas a umidade é de Éter
e um lagarto desce num rasgo até meus pés
e canta
aponta meu desenho e canta
parece um menino bonito primitivo acanhado e violento
parece o primeiro gosto do café
este é de Urano
é
este é mesmo de Urano






:
o único cascalho
ali deitado na areia
o cascalho que irá herdar
tudo de luz tudo de algas daquele momento:
um navio naufragava
cheio de éguas e homens desesperados
e você
amor desumano menino magrelo assombração triste
beijava a ponta do meu nariz
amarrava um guardanapo bordado a fados
no meu pescoço
me dava um cascalho e cantava assim:
herdará os olhos da gaivota comedora de éguas
herdará a pena da gaivota amante de todos os homens afogados
herdará um trechinho da ameaça mais terrível do senhor Cohen






:
quem vê
o mergulho suicida
da gaivota na rocha com busto e pescoço de mulher
quem vê a nudez no regaço vestido de vento
quem vê as linhas de arrasto triste triste nas nuvens rasgadas
quem vê o precipício entre o mergulho e as garrafas no estômago
da baleia que por ali jaze dois filhotes e meio
quem vê o abrigo que faz o horrendo vestido
da menina dos mariscos
quem vê abrigo qualquer no desenho do vestido
ora quem
vê o mergulho suicida da gaivota
a quem não vê não é permitida a mancha vermelha no busto no pescoço
ora lá quem não vê não tem pérolas para o toque do tempo
ora quem não leva a mão ao busto ao pescoço
ora ora
quem não usa o colar dessas horas inacabadas
ora quem não vê











&







+








quinta-feira, 26 de maio de 2016

Amanhã Alguém Morre no Samba





e é isso!
essa imensa alegria:
temos um bom apanhado de poemas de
Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria - Portugal - 2015)
na apetitosa Modo de Usar & Co.








(obrigada, Ricardo Domeneck!)




§§§










sexta-feira, 8 de abril de 2016

dois pontos pescoço – sou a santa do nicho pescoço - segunda leva








:
não é complicado
trocar a lâmpada
lascar fogo na noite
é complicado convencer o pescoço
de que a luz é toda necessidade em
ser tromba d’água
como o breu
convencer o pescoço
de que o vento não o remodela
de que a paixão faz dele corredor e
não sala de estar
de que não é complicado
um giro inteiro e mais um e meio
para se perder do eixo das dimensões
trocar a lâmpada e revisitar KADOSH
pela genética vez
ainda que o pescoço declare estado de
pescoço de galinha rodada com pinta de ganso
mimado







:
escurecia o dilatado luminoso
quando acordava pescoço
dizia colarinho com mulher sem pescoço
para espicaçar correntes de ar
queria pálpebras
e anistia debaixo das sobrancelhas
pretendia baques
chulas almofadas
mas reprimia escadas e janelas
quando acordava pescoço







:
num belo dia começamos
a cortar o bife de forma Abramovic
usamos os olhos para a perdição num ponto
futuro da biografia da trepadeira
enfiamos o dinheiro nas vísceras do garçom
escovamos os dentes pelo amor ao além-latrina
esmurramos a castanha com a obsessão do esquilo no pano de prato
abrimos o livro com a paixão da pavimentação
estacionamos o carro sobre o pescoço do pipoqueiro
comemos pipoca com a boca do engraxate
engraxamos as poltronas e amanteigamos as calcinhas
num dia terrivelmente belo
morremos atropeladas pelo ciclo da mandioca
mas aí então
tudo brota a ser arpão
tudo é seta para onde
tudo é jeito e boa trama então







:
farol :
comigo fica:
uma pedrinha da moela
nenhum filho uma escova
essa mão e uma eleita
dos raios os tortos que amolam o cágado
o futuro que couber no meu penico:
um barco carcomido de sal
redes e redes que faço com tudo do penico:
areia
meu pescoço
estrepitosamente
meu pescoço quando em estado de farol:
estrepitosamente cada grão da areia:
escadas de incêndio
beijos críveis culinária pagã
astros e satélites enguiçados







:
estender a asa norte e
sair feito uma garça rodada
eriçar a última pluma e sair
feito uma pavoa mentecapta
esticar as unhas e sair feito
um galo tarado espichar o sal
e sair feito um flamingo excessivo
arrepiar o bigode e sair
da moita em espasmos apaixonantes

o pescoço é o pêndulo da coisa penada
abraça um queixo meu peito pombo
bica uma pena que me coça a chaga da coisa penada

mania ave
de quantos bigodes precisa uma mulher para sair?










:
o dançarino
imita o coelho pidão
imita deslizes de montanhas
imita quengas e gueixas
imita a franja do figurino
mas seu pescoço não me engana
o dançarino imita aflige apedreja imita
imita os grandes ovos escondidos entre as
pernas da honorável espectadora

o dançarino arremeda o aplauso vicioso
a boquinha torta de carey mulligan
a sacanagem caridosa de nelson rodrigues







:
o nível da saliva vai subir e
o amor vai ser adiado para outro beijo
um em sedimento
dentro daquele livro
respeitosamente junto da flor escrita como o diabo
em memória do caminho vermelho
pelo pescoço
o nível das folhas secas vai subir
por isso mesmo
preenche saber
a consanguinidade outra
pelo nível do amor
o nível dos verbos vai subir
e os pescoços serão sinais flutuantes do novo horizonte:







:
começou com alguém segurando minha cabeça
então seguro uma mão com minha cabeça
e mais uma mão e com ela
mais uma dúzia
estou chorando
estou babando
e tudo começou com o medo de cair
digo
com a razão que queima e faz os nervos de cair
riscos nas bochechas
faz o errado ininterrupto vibrar os dentes
agora seguro muitas mãos na cabeça
e o segredo insiste aceder
a lubricidade neural rumorosa eleita
amanhã serei pescoço com cabeça para
oitenta e tantas mãos mais centenas de dedos
escolhidos a bafo









§§§











&





&









terça-feira, 22 de março de 2016

dois pontos pescoço – sou a santa do nicho pescoço - primeira leva





:
no momento limite
furado de pingos no papel de algodão
uns olhos em redemoinho
e um pescoço
do pescoço não se sabe tudo
sabe-se que cortado é só um pescoço cortado
mas da medida chamada cuidado
faz-se boa cicatriz
ou um som bem conhecido entre todos nós e os rinocerontes pintados de vermelho
já a língua

quero dizer e digo que pescoço é pescoço
não importa o papel
mas a medida chamada
e obscuro
o momento limite: o desenho anterior ao furo

e não
não é preciso matar ou ser matado
é a cabeça acima do pescoço ajuizando
esperar dentista é pescoço






:
os pés pelas pontas do pescoço que dança pelado feito um sol imperfeito
feito um sol
pelas pontas
o pescoço pelos pés
libertinagem na altura do pescoço
torto
a raiz ruidosa na vitrola
o pé pelas pontas do pescoço
e umas sombras
é
e umas sombras e um abajur sem pescoço













:
salas dum veludo azul sem fim
onde ninguém espera
atendimento ou
uma história que faça
eletricidade lobos sentido
mas ecos

desde ontem
até o corredor:
pescoço da instituição cujo
símbolo soldado no portão de ferrugem
tem um abajur com dois pescoços

deitar uma orelha sobre a decência e o sigilo da gaze iodada:
tenho gripes que fazem hospícios desde o corredor:






:
uma nave:
o pescoço e sobre
uma cabeça
que o valha

inunda tudo de recordações
mais graves que a boca
atracada num outro pescoço: outra nave:
caldo noturno de pescoços de chopin:
o retorno e a vitrola






:
grito
MU
e com as unhas
seguro o pescoço que me esgana
até que a resposta seja ragu para o domingo nadar
sossegado

a pergunta
o mambo que não justifica o tempo
tem de sumir com o mau hálito

meu privilégio é meu pescoço
meu privilégio me esgana
meu privilégio quer meu chá e minha menor
performance
ele quer meu oco






:
e descobriram um tipo de pescoço que diz a verdade
sobre as coisas que acredita dizer
e descobriram que não há outro tipo de pescoço












:
a nostalgia:
esperar o pescoço do urubu
enquanto não
bater uns ovos
amaciar a maminha
depenar a galinha e um sovaco só
depilar as ruas depenar-se sobre os papéis
fazer coroar um amontoado de sapos vermelhos
ligar uns pontos para ser justa outra vez
levantar o peso das noites pelo sexo
para ser justa outra vez
repetir a trégua entre uma perna e a outra
apontar a trégua para o céu e
mudar a lua de estado mudar a lua de lugar de forma e tom
para ser justa outra vez
para ser sincera
um tanto de
contrações também na nostalgia
pelo amor de deus
essa costela veio ao vácuo?
seja justa
dona






:
coisas que o pescoço não faz
coisas que só o pescoço faz

nota-se: a diferença faz o pescoço:

1 ampulheta
2 árvore longa
3 árvore mínima
4 céu com terra
5 distorções
6 distorções na cria
7 cheiro de pescoço
8 direção fraturada
9 fim da rua
10 caminho do sal
11 encanamentos absoluto






:
fundi meu olho do meio
ao meio de fulaninho:
de pescoços abertos
nos encontramos no mesmo vulto

os planetas avisaram
a reminiscência avisou
ministros articularam espirituosos discursos
fomos avisados enfim

e agora as estações chegam beliscando os gatos

fulaninho trouxe uns planetas hoje
jogou tudo na mesa da cozinha e disse que
estamos em época de apropriadas consequências
GIRE O PESCOÇO DE URANO PRA VER
agora toda fundida
eu acredito ver






:
é um milagre o pescoço estar onde está
ascendido num ponto da brancura do atlas
jogado na cabeceira da carcaça
flutuando na praça com a boca cheia
de pipoca e argumentos herbicidas
repartido atrás do poste
no colo da senhora Y
angustiado e problemático
queria tanto ser catalogador de gravetos em L
delator de goteiras retas
contador de monstruosas infâncias
pescoço puro ou só
daí que é um milagre estar onde está
ascendido na escuridão
entre o livro e o torso da vítima número 139
na rua F
pescoço da cidade pescoço
do estado






:
vais riconheçar-me pélo
piscoço
di tartruga moile
sinhuma das asas negrais
currida e moile
sinhu rabo virmalho
sinhum dus bracus néutrus
pélo piscoço
cumo faziem conuns fradis tumbadus antes d'cruz
pélo piscoço






:
nenhum pescoço é inocente
nenhuma música no pescoço condenado
ao remate
e variações do pescoço sem gogó:
estende as cordas sobre o lençol
pensa branco
pensa azul e vermelho:
janelas que não revelam o pescoço

pelo pescoço nenhum acidente involuntário:
não diga depressa sem coçar a nuca:
é pescoço não ter um olho mais à popa:

no varal estende as cordas e um
longo pigarro aos corvos

antes assim antes assim antes que a
a faca atravessada seja o pescoço






:
o desconcerto róseo do pescoço satisfatório
suas costas mal costuradas
quase livre de ser gargalo
e então o gato derruba a porta
e então tudo volta a ser pescoço de roer barcos do futuro imediato e que quase nunca
nunca vibra






:
de pescoço de pônei
morreu Bonie Blue Butler
pescoço de tigrinho cacheado

e a paisagem encarnou-se pelos rabanetes passados












§§§









+







+







+











terça-feira, 15 de março de 2016

proibido usar a língua na sala de usar a língua - flanzine #11



na flanzine #11

(com beijinho especial para o honorável nhô João Pedro Azul)





proibido usar a língua na sala de usar a língua





“ó, Édipo, meu rei cassetudo...
corte a língua antes dos olhos.
ó, Vincent, diabo roxo...
corte o gogó antes da orelha.
ó, Long Dong Silver, obelisco in a such rainbow democracy...
corte as bolas, corte as amídalas, deixe a língua maldizer-te todo língua.”


Marla Diacov






a língua besunta o verbo
debaixo da faca aos lados pela afiada ribanceira
com jabuticaba
pela língua
sei minha puerícia explodindo em roxos
sei meus matrimônios e meus divórcios
sei café por onde os roxos e vinhos e envelopes
salivados
em beijos franceses


duvido do paladar perfeito
o paladar dos outros no idioma inflável
a nata debaixo da lesma língua
ó e ó
da mobilidade amanteigada de certas
línguas
das delícias
vendidas nas fronteiras das bocas
o mercado negro
das preciosas mentiras
das dulcíssimas críticas
questão de sabor
sôbolos risos
questão da dobra na língua
sôbolos risos em inclinação
tantas as todas curvas e dobras


a gueixa usa a língua para trás
a gueixa trava a língua para dar
ameixa para quem não caga mais


§ diga meu nome com o sotaque que Camões
usou para desafogar Os Lusíadas
e me caso com essa língua que desde tanto me lambe
os ombros §


hoje então
quero passear de língua solta


§ mais roxos? §
§ meu nome é Marla Diacov
tenho um braço de 40 anos
um braço de trezentas e nove mil tentativas erradas
já meti a luva pelos dedos
os dedos pela boca
a língua pelo pé no chão onde pisou Anchieta §
§ e então e então? mais roxos? §


a língua não é confiável
nhô Anchieta
ó
sufro terribles crisis de reflujo gastroesofágico
quando peso 1975
quando encosto a régua no ano que se passa
a língua
repito
a língua
e repito e ajeito minhas ombreiras
a língua
ó e ó
Anchieta
a língua saliva o livro
a notícia
os classificados
lambe o atlas
picha nomes e cruzes
e comete suicídio
every
single
day
abraça a lâmina e chora
a língua
roxa roxa roxinha
a parte nobre do boi
a gueixa a jabuticaba a saudade só em português só:
modos de assar e de comer


§ sim e por favor
desejo todos os roxos
desejo todo o ardor §